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Alguns me perguntam que caminho a igreja deveria seguir hoje. Eu respondo: inquestionavelmente, o caminho dos apóstolos. Ou seja, siga os passos dos apóstolos, imitando sua posição corajosa e firme, sem medo de nenhuma ameaça, sem ter a vida como preciosa, sendo fiel até a morte, sem agradar aos homens. Mesmo ao encontrar resistência, ainda devemos pregar o evangelho e ensinar as palavras de Deus às pessoas. Quem conseguir fazer isso será abençoado por Deus e usado por ele. Também poderá realmente experimentar o que os apóstolos experimentaram na perseguição, mas também realizará o que os apóstolos realizaram. Sem dúvida, a glória e o grande poder de Deus se manifestarão por seu intermédio, assim como foi manifestado naquele dia pelos apóstolos. — Wang Ming-Dao, de A Call to the Church from Wang Ming-Dao

A perseguição costuma ter um efeito oposto ao planejado pelos perseguidores. O pai da igreja Tertuliano escreveu que o martírio de cristãos fiéis realmente estimulou o crescimento da igreja primitiva: “Quanto mais frequentemente somos abatidos por vocês, mais aumentamos em número; o sangue dos cristãos é semente” (The Apology). Histórias de mártires podem ser um grande encorajamento nos momentos mais sombrios do ministério, quando os pastores se veem atacados por todos os lados.

Mas alguns relatos de martírio da história cristã dão aos leitores a sensação de que aqueles que sofreram fielmente por Cristo experimentaram muito pouca luta com o medo ou a tentação. De acordo com Irineu, por exemplo, quando os guardas se preparavam para pregar Policarpo na estaca, ele disse: “Deixa-me como estou, pois quem me dá forças para suportar o fogo também me dará forças para permanecer na estaca, imóvel, sem ser preso por pregos”. Embora histórias como a de Policarpo possam ser encorajadoras, elas também podem causar nos pastores uma pitada de culpa quando algo tão simples como uma reunião tensa de orçamento os deixa questionando seu chamado.

Quando sou tentado a acreditar que a verdadeira fidelidade exige nada menos que uma resolução perfeita, me ajuda lembrar a vida do pastor chinês Wang Ming-Dao. Embora sua fé tenha passado por intensas dificuldades, ele também experimentou momentos de medo que resultaram em comprometimento. A vida e os ensinamentos de Wang me lembram que a proclamação de Cristo de “arrepender-se e crer no evangelho” (Marcos 1.15) é para todas as pessoas, pastores e leigos.

Fidelidade, transigência e restauração

Wang foi criado frequentando uma igreja e uma escola cristãs em Pequim, mas não se tornou cristão até os 14 anos. Durante uma doença grave, ele prometeu a Deus que, se sobrevivesse, abandonaria a carreira pretendida na política para ingressar no ministério em tempo integral.

Wang mudou seu nome de Tie-Zi (“Filho de Ferro”) para Ming-Dao (“Entendendo a Palavra”) e começou a lecionar em uma academia presbiteriana antes dos 20 anos. Em 1923, ele iniciou um estudo bíblico em sua casa, que se tornou o Tabernáculo Cristão de Pequim, em 1937.

Sua fidelidade a Cristo foi desafiada por forças políticas durante a ocupação japonesa de Pequim (a partir de 1937) e o estabelecimento da República Popular da China, em 1949. Nesses dois momentos, o governo procurou usar as igrejas locais para a promoção de objetivos políticos e, sob os dois governos, Wang testemunhou cristãos cederem à pressão política.

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Durante a ocupação japonesa, Wang se recusou a permitir que sua publicação cristã, Alimento Espiritual Quadrimestral, fosse usada como ferramenta de propaganda pelo governo japonês. Wang também se recusou a associar sua igreja ao Comitê de Promoção da Federação Cristã do Norte da China — estabelecido em 1942 — por preocupação de que o governo japonês o estivesse usando para influenciar as igrejas chinesas. Ele recebeu tantas ameaças das autoridades japonesas que comprou um caixão e o manteve em sua casa.

A ascensão do comunismo na China foi acompanhada pelo Movimento Patriótico das Três Autonomias, um organismo protestante interdenominacional sancionado pelo Estado que procurava vincular os cristãos chineses ao nacionalismo chinês. À medida que a pressão para se juntar ao Movimento aumentou para líderes e igrejas cristãs, Wang se recusou a ceder. Seu raciocínio não era tanto político quanto doutrinário. Muitos que ingressaram no Movimento negaram doutrinas fundamentais, como a inspiração das Escrituras, o nascimento virginal, a expiação e a ressurreição corporal de Cristo e Wang não acreditava que fossem verdadeiros cristãos. Como ele poderia, em boa consciência, associar-se a eles como se fossem?

Os líderes do Movimento das Três Autonomias ficaram furiosos e os pedidos para a adesão de Wang se transformaram em ameaças e perseguição. Os oponentes de Wang trabalharam para isolá-lo, prendendo os mais próximos a ele.

Em 7 de agosto de 1955, Wang proferiu um sermão sobre Mateus 26.45, intitulado “O Filho do Homem é entregue nas mãos dos pecadores”. Ele pregou: “Faremos o sacrifício que for necessário para sermos fiéis a Deus. Independentemente de como os outros possam distorcer a verdade e nos caluniar, nós, por causa de nossa fé, permaneceremos firmes”. Naquele mesmo dia, ele foi preso por ser “contrarrevolucionário”, junto com sua esposa e 18 membros da igreja. Eles foram amarrados com cordas e levados à prisão, onde, por meses, colegas de cela — instigados pelas autoridades — compartilharam histórias de horror de torturas que Wang suportaria se ele se recusasse a cooperar.

Essa estratégia teve o efeito pretendido. Anos de pressão e perseguição afetaram Wang e ele admitiu acusações falsas. Wang foi libertado em 29 de setembro de 1956 e, no dia seguinte, leu uma confissão de seus “erros” em uma reunião do Movimento das Três Autonomias. A queda de Wang não foi pequena nem privada.

Mas a libertação de Wang da prisão não acabou com sua tortura; apenas a mudou de externa para interna. Ele percebeu o que havia sacrificado por sua aparente liberdade e, de acordo com David Aikman, muitas pessoas relataram ter visto Wang vagando pelas ruas de Pequim repetindo: “Eu sou Pedro, eu sou Pedro”.

Após sua libertação, Wang deveria entrar para a igreja das Três Autonomias e pregar mensagens sancionadas pelo governo, mas não conseguiu fazê-lo. Por fim, com o incentivo de sua esposa, ele retirou sua confissão assinada. Wang foi à prisão mais uma vez, onde permaneceu por 22 anos. Devido à crescente pressão internacional, ele foi libertado, em 1979. Ele havia perdido todos os dentes e a maior parte da audição e da visão, mas sua fé permaneceu intacta. Ele e sua esposa ensinaram grupos de cristãos em seu apartamento até a morte de Wang, em 1991.

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‘Eu sou Pedro’

Em 1983, apenas quatro anos após sua libertação da prisão, Wang escreveu:

Alguns me perguntaram que caminho a igreja deveria seguir hoje. Eu respondo: inquestionavelmente, o caminho dos apóstolos. Ou seja, siga os passos dos apóstolos, imitando sua posição corajosa e firme, não sem medo de nenhuma ameaça, sem ter a vida por preciosa, sendo fiel até a morte, sem agradar aos homens.

Depois de experimentar um momento tão notável de contemporização, Wang chamou outros a uma fidelidade inflexível. Como ele poderia pedir aos outros que perseverassem no sofrimento quando ele não o fez? Uma lição pode ser aprendida com sua afirmação: “Eu sou Pedro, eu sou Pedro”.

Wang chamou os seguidores de Cristo à fidelidade “nos passos dos apóstolos”. Seus longos anos de perseverança fiel assemelhavam-se à proclamação corajosa dos apóstolos da mensagem de Cristo em Atos, e sua contemporização para evitar a perseguição refletia o abandono de Cristo pelos discípulos antes de sua crucificação. Qualquer chamado para trilhar o caminho dos apóstolos deve abrir espaço para a realidade da fraqueza humana. A necessidade de buscar perdão e experimentar a redenção faz parte do chamado à fé intransigente.

Mesmo antes de sua prisão, Wang mostrou sensibilidade aos crentes que poderiam se render à tentação. Ele pregou:

Existem muitos santos como Pedro. Num momento de fraqueza, tropeçam e caem; eles são culpados de ofender seu Senhor. ... Nesse momento, a maior necessidade deles é estar cientes do perdão e da aceitação do Senhor e tornar-se conscientes da compaixão e do amor do Senhor.

Wang provavelmente não percebeu que essas palavras acabariam se aplicando a ele, mas seu exemplo, ao buscar perdão e ao retornar à prisão, revela todas as implicações de seus ensinamentos anteriores.

Ironicamente para Wang, sua transigência o colocou em uma posição de potencial destaque na sociedade, enquanto seu arrependimento subsequente o levou à prisão. Por outro lado, quando vemos ministros cristãos pegos em algum pecado público sério, hoje, não é raro testemunhar que esses mesmos pastores tentam recuperar suas plataformas públicas depois de um curto período de tempo afastados do ministério.

O exemplo de Wang mostra-nos que um chamado ao longo da vida para o ministério não é o mesmo que um chamado ao longo da vida para o púlpito. Ele foi restaurado pelo perdão de Deus, não à liberdade ou à fama, mas a mais 22 anos de cativeiro e tortura. Embora preso — e talvez por causa disso — ele ainda conseguiu revelar “a glória e o grande poder de Deus”.

A vida do apóstolo Pedro serve de modelo para a restauração verdadeira. Embora ele tenha negado Cristo três vezes antes da crucificação, seu Senhor mais tarde o restabeleceu no ministério. Cristo perguntou a ele três vezes:

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“Simão, filho de João, você me ama?”

Pedro ficou magoado porque Jesus perguntou pela terceira vez: “Você me ama?” Ele disse: “Senhor, você sabe todas as coisas; Você sabe que eu te amo.”

Jesus disse: “Pastoreie as minhas ovelhas. Digo-lhe a verdade: Quando você era mais jovem, vestia-se e ia para onde queria; mas quando for velho, estenderá as mãos e outra pessoa o vestirá e o levará para onde você não deseja ir. Jesus disse isso para indicar o tipo de morte com a qual Pedro iria glorficar a Deus." Então ele disse: “Siga-me!” (João 21.17–19)

Pedro passou a fazer grandes coisas na igreja primitiva, mas o fez sob ameaças regulares e, como Jesus previu, seu ministério fiel resultou em martírio. A verdadeira restauração de um líder cristão não é medida pela recuperação da fama ou pelo cargo pastoral, mas pela recuperação de uma vida marcada por arrependimento e fé.

O ministério como um ser humano imperfeito

Pastorear uma igreja me levou a enfrentar minhas próprias limitações de maneira que nenhuma outra responsabilidade o fez. Pecados pessoais, deficiências e inabilidades podem flutuar na superfície. Se alguma vez senti a necessidade de humildade pessoal e da graça de Deus, isso foi no ministério pastoral.

Nenhum cristão, nem mesmo um pastor, é um estranho ao pecado. Reconhecer, confessar e afastar-se regularmente do pecado, em arrependimento, é uma parte necessária do trabalho pastoral fiel. Por mais desencorajador que seja o fracasso público de um pastor, Jesus Cristo não é menos um pastor para o pastor do que para o leigo. Ele é o pastor principal e todos os verdadeiros crentes são parte de seu rebanho. Acho útil lembrar-me regularmente de que, embora Deus tenha me chamado para ser pastor, eu também nunca deixarei de ser ovelha.

Navegar no ministério pastoral como pessoa imperfeita, em meio à tentação e ao sofrimento, é um empreendimento desafiador. Acho que a história de Wang é especialmente clara ao transmitir tanto a necessidade de fidelidade radical a Cristo diante das dificuldades quanto a realidade de nossa fragilidade humana. Como pastor chamado a uma fé intransigente, nunca superarei minha necessidade da graça do Senhor.

John Gill é professor associado de Estudos Cristãos na California Baptist University e pastor de discipulado na Redeemer Baptist Church, em Riverside, Califórnia.

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