Eu estava correndo pela manhã, enquanto o sol nascia no céu azul da Califórnia. Naquela hora, quase não havia ninguém na rua. Você aprende desde criança a não correr muito cedo, pela manhã, nem tarde da noite.

Acho que me esqueci das lições, as orientações de segurança que meus pais me ensinaram. Eles sabiam o que poderia acontecer. Eu levei meu documento de identidade, como minha esposa sempre me orienta a fazer quando saio. Durante a corrida, eu não estava preocupado com nada e me senti bem. Eu mal podia esperar para verificar meu ritmo em meu rastreador de fitness.

Então, aconteceu. Eu olhei ao longe e vi um homem branco, em sua varanda, tirando fotos de mim. Cada foto que ele tirava me deixava mais confuso. Eu disse: "Está uma bela manhã, não é?" como se ser respeitável me protegesse nessa situação ou fizesse com que ele finalmente me visse como um ser humano.

Ele não respondeu. Lá vamos nós de novo.

Meu medo rapidamente se transformou em raiva. Eu queria lutar por minha dignidade, ao ser fotografado por um estranho e ser informado de que não pertencia ao lugar onde estava. Patrulhado por um homem parado na varanda da frente. Ali, no sul da Califórnia, o fantasma de Jim Crow, ao estilo "O que você está fazendo aqui, crioulo?", apareceu.

Mas, no fim das contas, senti-me impotente. Eu não podia nem chamar a polícia, porque poderiam me confundir com o agressor. É com esse tipo de situação que os negros precisam lidar, enquanto outros podem desfrutar de suas corridas. De novo e de novo, ano após ano. Essa raiva me força a ficar irado com a nossa realidade e ter fé para acreditar que é possível melhorar.

Mas, naquele dia do ano passado, minha raiva se transformou em profunda tristeza. No caminho para casa, parei, abaixei a cabeça e chorei. Não foram lágrimas de fraqueza. Chorei porque senti o que muitos daqueles que se parecem comigo têm sentido: a violência de um mundo sem amor. Aquele homem me roubou naquele dia. Em sua crueldade, ele roubou algo de mim.

Eu era atleta na faculdade; agora eu corro e ando de bicicleta. Corri meias maratonas e completei um Ironman. Mas não posso desfrutar das corridas como costumava. Onde está a alegria e a liberdade de sair na estrada e treinar meu corpo quando tenho de me perguntar se um dia não chegarei ao fim da corrida? Eu tenho corrido a vida toda e, de certa forma, agora, tenho de correr para mantê-la. Minha esposa tem medo de que lhe liguem e digam: "Seu marido está morto".

Muitos acreditam que casos como o ataque a Ahmaud Arbery são isolados. Ou que são o tipo de coisa que só pode acontecer no sul. Não, nossa sociedade foi ensinada a ser antinegra. Vemos como patrulham nossos movimentos, criminalizam nossa humanidade e evitam o acerto de contas racial, enquanto desfrutam do fruto que vem de árvores podres - árvores nas quais meus ancestrais pendem, sem vida.

Essas feridas são profundas e, hoje, corro por meu futuro, meu povo e, até, por minha vida. É um trauma que os negros americanos são forçados a enfrentar, as trágicas condições de opressão, a audácia da branquidão. Não pude deixar de pensar: por que eles nos odeiam tanto?

O crime e a tragédia de ser negro

Não muito tempo antes daquela abordagem, durante minha corrida no verão passado, eu havia escrito em um diário como desejava que, quando saísse para o mundo, as pessoas ao meu redor me vissem, fundamentalmente, como cristão. Mas a verdade é que, não importa quantos versículos da Bíblia eu cite, quantos ótimos livros eu leia e publique, quão moralmente excelente eu seja, que graduações acadêmicas eu tenha ou qualquer outra característica que seja "bem-sucedida", nada disso pode me proteger da tragédia de ser negro.

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E como tomamos conhecimento de tragédias!

Nas últimas semanas, ativistas armados invadiram as ruas para protestar, protegidos por sua branquidão, enquanto negros inocentes e desarmados são atacados por viver sua vida. O nome de Arbery se junta a uma longa lista de vítimas negras que nunca deveriam ter sido mortas, desafiadas ou até postas em suspeição; pessoas que não fizeram nada errado.

Testemunhamos mais uma vez a exibição pública do que Eddie Glaude chama de "diferença de valor": a crença de que vidas negras são menos valiosas que outras. A experiência dos negros com o COVID-19 revelou desigualdades que existem desde o início - em assistência médica, poder, riqueza, educação, renda e encarceramento.

Arbery correu. Ele lutou por sua vida, por sua negritude, mas a raiva branca as roubou dele. Faz dois meses e meio desde que ele foi morto e seus agressores foram, finalmente, presos. Quando assisti ao vídeo, meu coração sangrou. Minha mente voltou ao que aquele homem fez comigo, às fotos, à volta para casa, às lágrimas. Eu consegui, mas Arbery, não. Ele não vive para contar a história. Ele não pode ficar bravo ou fazer algo a respeito. Ele se tornou uma hashtag, uma memória, uma oração. Ele morreu sozinho naquele dia. Sua última lembrança ficou no asfalto.

Após sua morte, o promotor da cidade, George Barnhill, declarou que a saúde mental de Arbery e condenações anteriores explicavam sua agressão a um homem armado que o confrontou na rua. Barnhill culpou a vítima, não a sede de sangue de um grupo de linchadores. A crueldade.

Todo ano, algo nos lembra de que vidas de negros não importam. Neste ponto, transbordamos de indignação. A história nos mostra que as maiores ameaças à vida negra são a supremacia branca, o poder branco e o terrorismo branco. Quem lutará por nós se lutamos por nós mesmos e ainda somos linchados? Quem responsabilizará os assassinos? Quanto sangue negro deve ser sacrificado à supremacia branca? Por que nossas famílias devem ser aterrorizadas enquanto vivem em paz? Essas perguntas estão sempre em minhas orações silenciosas e nas lágrimas de medo.

Miroslav Volf escreveu sobre lembrar-se da maneira correta em um mundo violento: "Lembrar-se de uma transgressão é lutar contra ela". Ser negro e cristão é lembrar-se da violência e de nossos mortos, honrá-los quando olhamos para nossos filhos e enquanto lutamos para responder essas questões. É lembrar-se, como James Cone escreve, da "mensagem de libertação de Deus em um mundo não redimido e torturado".

A memória nos chama a trabalhar por um futuro melhor. Ela nos força a nos posicionarmos no mundo como cristãos e a fazer algo para mudá-lo.

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Ainda esperando por mudanças

Nós, negros, queremos mudar. Glaude, um estudioso de religião afro-americana em Princeton, escreve: "Temos de romper os hábitos raciais que dão vida à diferença de valor, e isso começa com mudanças em nossos arranjos sociais e políticos". Precisamos de uma revolução de valor - no governo, em nossas comunidades, em nossa vida. Nós realizamos o trabalho, e estamos cansados.

As pessoas gostam de dizer: "Estes não são os Estados Unidos que eu conheço". Ouvimos isso com relação à escravidão; a Jim Crow; aos direitos civis; aos anos 90; à reação branca a Obama; aos assassinatos brutais de crianças, mulheres e homens na era do Black Lives Matter; e até à raiva branca em apoio a Trump. Já ouvimos isso antes. E sabe de uma coisa? Essas pessoas estão totalmente certas. O escudo da branquidão protegeu muitos da experiência devastadora de um mundo que conhecíamos o tempo todo - aquele em que vidas brancas, comunidades brancas e a dor branca importam muito mais que as nossas. Eu só queria que esses pensamentos e essas orações fossem direcionados contra um mundo que os protegeu e nos matou.

Se nossa teologia, hoje, não tem nada a dizer ou fazer sobre o terror de ser negro em um mundo criado para a branquidão e as trágicas estruturas de opressão, é como um de meus amigos disse: "Você não tem nada a oferecer às pessoas negras".

Estou muito menos preocupado com o que as pessoas põem em uma hashtag. Todo ano surge outra hashtag e todo ano continua acontecendo. Estou mais preocupado com o modo como levantamos a questão em nossas congregações, famílias e reuniões de diretoria, e com o que acontece nas urnas. São esses os lugares onde a integridade do amor atende às demandas da libertação. Agora não é hora de frases curiosas, chamadas vazias para a unidade ou convites a pessoas negras, para fazer com que os brancos se sintam bem. Não. Esse não é um chamado à salvação, uma crença de que a branquidão pode nos salvar. Não, esse chamado está nos matando. É um chamado à libertação e ao amor.

Quanto tempo temos de esperar pelo progresso? Quantos têm de ser brutalmente assassinados antes que as pessoas acreditem que realmente estamos dizendo a verdade? O que o ciclo de violência e apatia está nos custando? Por que somos nós os que temos de acreditar que Deus tem um bom plano para nós no futuro, mas o melhor plano para eles no presente? Por quanto tempo temos de suportar esse tipo de conversa até que as pessoas percebam que a supremacia branca não é um problema nosso, mas deles e de seus filhos? Eu quero que meu filho sobreviva. Quero saber que muitos de seus filhos o defenderão quando ele precisar. Não quero que ele não volte para casa. Não quero lhe dizer como proteger sua humanidade. Eu quero que ele viva. Quero que ele seja livre, como Cristo prometeu. Quero saber que a mudança ocorrerá, mas a História conta outra história.

Graças a Deus, a palavra final sobre a vida dos negros nos Estados Unidos não é a morte na árvore do linchamento, mas a redenção encontrada na cruz. A cruz foi a repreensão de Deus pelo poder abusivo - poder branco nos Estados Unidos - usando o que Cone chama de "amor impotente, arrancando a vitória da derrota". Cone argumenta poderosamente que o linchamento é a metáfora da destruição dos negros pelos brancos dos Estados Unidos. Contudo, Deus tomou o mal da cruz e do linchamento e transformou os dois na beleza triunfante do divino. Deus pode suportar a dor e transformá-la em poder.

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A transformação é a que James Baldwin se refere quando escreve: "É necessário ter resiliência espiritual para não odiar quem odeia e cujo pé está no seu pescoço, e um milagre ainda maior de percepção e caridade não ensinar seus filhos a odiar". Realmente, não sei quanto mais podemos aguentar.

Temos fé, mas precisamos lutar.

Temos a oração, mas precisamos protestar.

Estamos tentando amar Jesus, sim, mas também estamos tentando viver.

Estamos tentando sobreviver à corrida. Porque alguns de nós não sobrevivem.

Danté Stewart é um escritor e pregador que estuda na Candler School of Theology da Emory University. Seus artigos anteriores para a CT incluem "Why We Profethy Hope Hope" e "Martin Luther King Jr .: Exemplar of Hope."

Speaking Out é a coluna de opiniões de convidados da Christianity Today e (diferentemente de um editorial) não representa necessariamente a opinião da revista.

Traduzido por Mariana Albuquerque

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