No verão passado, batizei a filha de um amigo. Embora pequena e frágil, a batizanda permaneceu calma nos braços do pai, enquanto eu gentilmente derramava água em sua cabeça. Os padrinhos e o irmão mais velho se aglomeraram ao redor da pia batismal, e outro sacerdote conduziu a liturgia, enquanto eu orava e abençoava a mais nova integrante da igreja.

Na minha tradição anglicana, a congregação participa da bênção e promete ajudar a criar os recém-batizados como membros da família de Deus. Naquela manhã, eles proclamaram: “Nós a recebemos na comunhão da Igreja. Confesse a fé do Cristo crucificado, proclame sua ressurreição e participe conosco do sacerdócio real de todo o seu povo”. Ao ouvir as vozes que vinham do lado, de trás e de minha frente, fiquei impressionada com a quantidade de pessoas que participam do batismo de uma pessoa.

O rito do batismo é corporal e comunitário. É a iniciação de um corpo físico, um ser humano, no corpo social e espiritual de Cristo, a igreja. O batismo significa a natureza e a forma de toda a vida cristã: seguir Jesus é ser corporalmente adotado em seu corpo (1Co 12.12). Como cristãos, submetemos nosso corpo individual a Deus, como instrumento de justiça (Rm 6.12–13). Humildemente oferecemos nossas forças individuais a outros membros da família de Deus, pois somos membros uns dos outros (Rm 12.3-5).

A adoração coletiva demonstra essa realidade semanalmente. Nós nos reunimos como corpos, apresentando-nos por inteiro a Deus em louvor e ação de graças. Cantamos e levantamos as mãos, ajoelhamo-nos para confessar e orar, tomamos o pão nas mãos e o comemos. Mas também nos reunimos como um corpo composto por muitos corpos, incorporando nossa fé individual em uma realidade comunitária mais ampla. O cristianismo nunca é apenas pessoal e privado, mas sim interpessoal e familiar. Nossa comunhão com Deus é a comunhão de uma família.

A pandemia encobriu essas realidades à nossa visão. A renúncia ao culto público forçou o isolamento necessário como expressão de amor ao próximo, mas, com o passar do tempo, nossa aclimatação à conexão digital — ou, em alguns casos, a nenhuma conexão com a igreja reunida — pode nos fazer esquecer de quem somos. Os cultos transmitidos por streaming ou podcast nos induzem a acreditar que somos almas presas a um corpo, e que a adoração é apenas uma questão de baixar conteúdo cristão. Perdemos contato (trocadilho intencional) com nossa participação corporal na adoração, quando “vamos à igreja” utilizando fones de ouvido, ou enquanto dirigimos ou dobramos roupa lavada no sofá.

Essa adoração individualizada e sob demanda também nos põe em risco de esquecer o corpo mais amplo de adoração, a igreja. Não vemos os outros membros de nossa congregação nem ouvimos suas vozes, quando cantamos. Não somos confrontados com suas lágrimas nem lembrados de suas lutas particulares. Devido à ampla disponibilidade dos serviços de transmissão on-line, nós facilmente "pulamos” da adoração de uma congregação para outra diferente, no Zoom, ou simplesmente ignoramos a adoração, trocando-a por outra mídia cristã.

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Isso não é novo. Em 2000, Rodney Clapp escreveu profeticamente em seu livro Border Crossings sobre algo que ele chamou de “dupla desencarnação” do cristianismo moderno:

Discípulos […] são separados do corpo social da igreja, e sua fé, como crença, é separada de seus corpos físicos e do mundo social e material em que habitam. O culto coletivo está se tornando subordinado ao individual, como uma prática adjunta ou auxiliar do culto que os indivíduos empreendem por conta própria. […] Tais adoração e espiritualidade estão, é claro, eminentemente de acordo com o ethos do capitalismo, que favorece a multiplicação sem fim da escolha individual.

O cristianismo americano tem sido prejudicado pelo consumismo. O capitalismo valoriza o indivíduo e nos ensina a enxergar tudo, inclusive a igreja, pelas lentes da satisfação do cliente. Isso torna difícil abraçar a igreja como uma família à qual pertencemos e junto à qual temos responsabilidades.

Nossa separação forçada, durante a pandemia, é uma desencarnação que nenhum de nós escolheu. Mas ela criou condições que exacerbam o impacto do consumismo na igreja: nossa dispersão física e a maior dependência da adoração digitalizada e privatizada reforçam a mentira de que somos consumidores anônimos de conteúdo cristão, em vez de membros interdependentes de uma comunidade cristã. Essa mentira desencarna nossa adoração e desmembra nossa comunhão.

Qual é a solução? Enquanto a pandemia se alastra, a adoração on-line continua sendo uma necessidade. Mas podemos “discernir o corpo”, mesmo enquanto permanecemos separados fisicamente.

Primeiro, podemos envolver nossos corpos na adoração, tanto quanto possível. Podemos cantar junto, no momento da adoração, em nossa sala de estar. Podemos nos ajoelhar ou levantar as mãos, fazer anotações durante o sermão ou participar fisicamente de outras maneiras disponíveis.

A adoração corporal também pode ajudar a envolver as crianças. Meus filhos têm dificuldade de assistir ao culto todo on-line, mas adoram dançar durante as músicas. As famílias podem recrutar as crianças mais velhas para criar um espaço sagrado em casa, nas manhãs de domingo, decorando-o com velas, cruzes, Bíblias ou outros lembretes tangíveis de que entramos na presença de Deus como seres físicos, enraizados no tempo e no espaço. Adoração é mais do que consumo de conteúdo; é uma resposta encarnada.

Em segundo lugar, podemos nos lembrar de forma criativa do corpo social com o qual adoramos e ao qual pertencemos. Algumas igrejas incorporam vídeos ou pedidos de oração dos membros em seus cultos de domingo. Algumas famílias em minha igreja formaram um pequeno grupo para assistir aos cultos, de modo que ainda pudessem adorar juntas. Pesquisas sugerem que os cultos ao vivo promovem uma conexão maior do que a adoração pré-gravada, mas mesmo aqueles que precisam assistir aos cultos gravados podem discutir o sermão e orar com amigos da igreja, por telefone, durante a semana. Os ambientes de bate-papo com transmissão ao vivo, “cafés virtuais” antes ou depois do culto e hinos entoados por corais virtuais são formas de facilitar o envolvimento e a interação. Ver rostos e pronunciar seus nomes nos lembram de que a igreja é uma comunidade, não um grupo de consumo.

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Terceiro, podemos orar para que Deus use a pandemia a fim de curar nossa “dupla desencarnação”. O distanciamento social e a quarentena já levaram a um ressurgimento da apreciação do contato físico pessoal. O que antes tínhamos como certo — apertos de mão, jantares com amigos, louvar juntos — agora são coisas que apreciamos ainda mais e pelas quais ansiamos. Talvez esta temporada de isolamento e recessão social leve a uma renovação na igreja.

Podemos orar para que nossa solidão revele a necessidade de um verdadeiro pertencimento, expondo a insuficiência da intimidade digital e do consumo anônimo. Podemos orar por um compromisso maior com o corpo composto de muitos corpos, que é a igreja — às vezes separados no tempo e espaço, mas mantidos em união pelo Cristo ressurreto. Podemos orar por graça para lembrar nosso batismo e os votos inerentes a ele. Pois “todos nós fomos batizados em um só corpo pelo único Espírito [...]. De fato, o corpo não é feito de uma só parte, mas de muitas partes diferentes” (1Co 12.13–14).

Hannah King é pastora da Igreja Anglicana da América do Norte e reitora associada da Village Church, em Greenville.

Traduzido por Maurício Zágari

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