Joe Gardner sempre sentiu que “nasceu para tocar” piano jazz. Quando ele realiza seu sonho de tocar com a famosa saxofonista Dorothea Williams, pergunta a ela: “Então, o que vem agora?” Ela responde: “Voltamos amanhã à noite e fazemos tudo de novo”. Desanimado, Joe confessa: “Esperei por este dia durante toda a minha vida. Achei que me sentiria diferente. ”

O filme Soul, da Disney Pixar, oferece uma mensagem filosófica surpreendentemente inebriante para uma geração angustiada, que está tentando encontrar propósito através de um trabalho que faça a diferença. O principal insight do filme é algo que os cristãos já sabem: a vida é muito mais do que nossas conquistas. Na verdade, foi essa constatação que inspirou o conceito do filme, segundo o diretor Pete Docter. Depois de terminar outro popular filme da Pixar, Inside Out, ele ficou se perguntando o que viria a seguir. “Percebi que, por mais maravilhosos que sejam esses projetos, há mais coisas na vida do que uma paixão singular”, disse Docter. “Às vezes, as coisas pequenas e insignificantes são as que realmente importam.”

A mensagem de Docter é encarnada pelo personagem Joe Gardner (Jamie Foxx), um professor de música de meio período que nutre aspirações maiores de se apresentar profissionalmente como pianista de jazz. Toda a sua vida é focada em atingir esse único objetivo, mas, quando ele finalmente consegue sua chance de tocar com Dorothea Williams (Angela Bassett), Joe sofre um acidente infeliz que quase destrói seu sonho — e o lança no universo da vida após a morte.

A vida após a morte consiste em duas partes: o Grande Antes e o Grande Além. Joe se encontra no Grande Antes — um lugar onde novas almas encontram sua personalidade e sua "faísca de vida” — atividades ou experiências que cativam a imaginação. Lá, ele encontra uma alma sem corpo chamada 22 (Tina Fey). Ela não se interessa em viver na terra nem pelo que parece dar sentido à vida, seja trabalho, esportes ou até mesmo o conhecimento. Para a personagem 22, a vida não tem propósito se não houver uma razão incrivelmente maravilhosa para viver. Os dois personagens partem, então, em uma missão para encontrar a “faísca de vida” de 22.

Nas últimas décadas, jovens adultos cristãos partiram em expedições semelhantes em busca de uma “faísca”, à procura de alcançar aquele algo grandioso por nossa fé. Nós também estamos sujeitos a sentimentos de falta de propósito, se não estivermos envolvidos em nos tornarmos grandes ou em fazermos coisas grandiosas “por causa do evangelho” (1Coríntios 9.23). Livros populares — como Uma vida com propósitos (2002), de Rick Warren; Não jogue sua vida fora (2003), de John Piper; e Radicalize: Um desafio para fazer diferença na adolescência (2008), de Alex e Brett Harris — nos desafiaram a viver missionalmente e a sair da nossa zona de conforto para conquistar grandes coisas. Mas foram guias inadequados para as questões corriqueiras da vida. À medida que muitos millennials se viram trabalhando das 9 às 17h, para colocar comida na mesa e pagar a conta de luz, alguns começaram a se perguntar se sua vida cotidiana dava testemunho do evangelho de Jesus Cristo de alguma maneira grandiosa.

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Essas questões são agravadas em um ano sobrecarregado com questões como a pandemia, persistente injustiça racial e social e conflitos políticos sem precedentes para nossa geração. Nossas almas foram condicionadas a fazer algo tão extraordinariamente impressionante e eficaz que, um ano de quarentena, distanciamento e quietude parece uma traição ao nosso testemunho cristão. Contudo, quando aplicamos a mentalidade capitalista do "eu quero, eu posso, eu consigo" ao nosso trabalho para Deus, corremos o risco de negar a própria graça da qual afirmamos depender.

Buscar sentido em nossas habilidades e sonhos, em vez de confiar em Cristo com humildade, pode nos tornar vítimas do feitiço idólatra da autoadoração. Os resultados dessa troca podem ser prejudiciais para nossa saúde física, mental e espiritual.

Joe Gardner testemunha em primeira mão as consequências de idolatrar nosso propósito de vida. Enquanto tenta voltar para seu corpo na terra, navegando nas águas do Plano Astral (um construto mental situado entre os planos físico e espiritual), ele observa “almas perdidas”, sem rumo, à procura de algo. Moonwind (Graham Norton), membro do grupo Místicos sem Fronteiras, "dedica-se a ajudar as almas perdidas da Terra a encontrarem seu caminho”. Ele explica a Joe que essas almas são indivíduos que, em algum momento, encontravam-se “em uma zona”, [na qual eram] bem-aventuradamente devotados à excelência e aos prazeres de seu ofício. Mas, em algum ponto, foram incapazes de “abandonar suas próprias ansiedades e obsessões, o que os deixou perdidos e desconectados da vida”; então, eles se tornaram versões irreconhecíveis e vazias de si mesmos.

Nosso trabalho e nossas aspirações nunca poderão nos dar a realização que fomos criados para ter. A autora Cleo Wade recentemente repercutiu a mensagem do filme Soul, encorajando qualquer pessoa que seja suscetível a essa idolatria sutil a “deixar de tentar se identificar por uma ideia ou objetivo. Em vez disso, comprometa-se a trazer propósito e paixão para cada conversa que tiver, para o ambiente de trabalho e para o ambiente doméstico do qual você faz parte”.

O cristão, porém, leva isso um passo adiante. Comprometemo-nos a trazer a paixão de Cristo para todas as áreas de nossa vida cotidiana. Ao fazer isso, experimentamos o que significa estar vivo e ser humano da maneira que Deus nos criou para ser. “Se tivermos em mente que aquilo que fazemos no dia a dia pode ‘direcionar o amor e os desejos que temos para Deus’, nosso trabalho deixa de ser enfadonho”,escreveu Jamie Hughes.

Quando estamos vivendo uma vida grandiosa, pulando de tarefa em tarefa sem nos concentrarmos em nada em particular, o chá não passa de uma injeção de cafeína. Contudo, se estamos em sintonia com Deus e vivemos no ritmo mais lento que a adoração requer, a hora do chá ganha dimensões adicionais, e se torna um “fascínio de água quente e folhas secas” que proporciona o santuário.

Jesus exemplificou isso para nós. Ele “veio para nos mostrar como sermos humanos”, disse o pastor Zach Lambert. “Como devemos amar a Deus e ao próximo. Como devemos depender do Espírito e ver seu fruto se manifestar em nossas vidas. Como devemos cuidar dos necessitados e feridos que estão entre nós. Como devemos lutar por justiça e contra a opressão”.

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No entanto, para quem está constantemente buscando encontrar sentido para a vida na próxima grande conquista, tudo parecerá constantemente sem sentido. Podemos perder a oportunidade de viver a vida que Deus colocou diante de nós. Como Joe, também podemos exagerar a ideia de que “nascemos para fazer” algo. A verdade, porém, é que não nascemos para fazer nada, a não ser permanecer em Cristo. Vivemos em Jesus (Atos 17.28). É possível que venhamos a definir nosso valor por algum propósito e, depois, venhamos a ficar cegos para as maiores bênçãos e maravilhas de sermos definidos por nossa identidade em Cristo (Colossenses 3.3-4).

Espero que 2020 tenha nos lembrado de apreciar a maravilhosa dádiva desse permanecer. E, caso não tenha, Soul nos leva a desvalorizar a busca incessante de um propósito singular e a encontrar sentido na vida cotidiana, pois é Deus quem dá sentido à nossa vida.

Timothy Thomas é professor de segundo grau e colaborador da revista digital Christ and Pop Culture.

Traduzido por Erlon Oliveira

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