Visitei um membro querido de minha igreja que morava em uma residência para idosos. Essa senhora teve um derrame e, embora isso não tenha diminuído em nada sua vivacidade, ela teve a memória prejudicada. Eu a encontrei no refeitório, almoçando com outros residentes. Ela felizmente me reconheceu como alguém familiar quando cheguei, mas lutou para lembrar meu nome.

A residente sentada a seu lado perguntou se eu era neto dela. E a senhora respondeu não da forma que a outra esperava, mas sim de uma forma que surpreendeu a mim e a sua companheira de mesa. Com um enorme sorriso no rosto e um brilho nos olhos, ela anunciou com entusiasmo, enquanto apontava para mim: “Este é o Senhor!” Naturalmente, a outra residente, um pouco surpresa, deu uma boa olhada em mim, antes de expressar descrença e desdém ao mesmo tempo. Minha amiga percebeu tudo isso, de modo que repetiu com gosto sua apresentação: “Este é o Senhor!”

No início, achei engraçado e fiquei surpreso demais para corrigi-la, mas assim que recuperei a compostura, rapidamente admiti que não, na verdade eu não era o Senhor, mas apenas um ministro de sua igreja. Minha confissão não conseguiu apagar o desdém do rosto da outra residente. Aparentemente, como pastor eu não havia causado tanta impressão quanto causara como Senhor. Ela voltou a atenção para sua tapioca, bastante desapontada.

Embora o cuidado pastoral possa despertar em nós um complexo de Messias, também pode causar irritação. O cuidado pastoral costuma ser uma interrupção. Como é de se esperar, o telefone toca nos momentos em que sentimos ter menos tempo [para atender], com sermões para preparar, estudos bíblicos para conduzir, equipe para treinar, programas para organizar e e-mails para responder. Devo parar tudo o que preciso fazer para ir ao hospital orar com os enfermos? Não posso interceder por eles do meu escritório? (Eu me sinto culpado até mesmo ao digitar essas palavras).

Lembro-me de um pastor de uma grande igreja que brincava, dizendo que, se alguma vez o vissem em um quarto de hospital, a pessoa que ele estivesse visitando devia estar gravemente doente. Em contrapartida, estagiei com um pastor que visitava os enfermos todas as tardes. Para ele, essa prioridade vinha da identificação de Jesus com os enfermos (Mt 25.36). Naquela época, os hospitais mantinham listas de quais pacientes frequentavam quais igrejas, tornando possível que os pastores chegassem sem avisar, para espanto de seus fiéis doentes. (Nada impressiona mais as pessoas do que uma pitada de onisciência!)

O cuidado é a pedra angular da nossa vocação. Então, por que devemos ser persuadidos a cuidar das pessoas? Pode ser porque o cuidado pastoral requer músculos espirituais que não exercitamos com tanta frequência. A maior parte do nosso trabalho tende a ser em outras direções, deixando o cuidado pastoral funcionar como uma espécie de sidecar (aquele assento para passageiro, de uma roda só, preso a lateral de uma motocicleta) em relação ao que parece ser o ministério mais importante. As igrejas maiores relegam o cuidado pastoral aos pastores associados e as igrejas menores, a capelães de hospitais, de instituições para cuidados paliativos, entre outras. Percebendo isso, nossos fiéis recorrem a serviços como esses, bem como a terapeutas, conselheiros e uma série de métodos de autocuidado do tipo “faça você mesmo”, tudo para não incomodar o pastor.

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Há também uma aversão, típica de seres humanos saudáveis, a frequentar o mundo dos enfermos, feridos e moribundos. Nós, pastores, podemos pregar que a morte é o caminho para a ressurreição, mas preferimos passar tempo entre os vivos do que entre os que estão morrendo.

Os pastores há muito têm sido incumbidos de cuidar das almas, chamado que deve incluir corpos enfermos — ainda que por fim vá além deles. Todos os enfermos que Jesus curou mais tarde morreram. Dessa forma, a cura apontava para o céu; mas ainda não era o próprio céu. Os pedidos de oração da nossa igreja estão repletos de pessoas que sofrem angústia por dores físicas, mas devemos orar e tratar das dores espirituais também.

Isso não significa que todo sofrimento encontrará cura. Jesus deixou claro que segui-lo traria problemas. Cada um de nós deve carregar a própria cruz e experimentar o sofrimento como uma espécie de terrível graça de Deus. Como o pastor luterano Harold L. Senkbeil nos lembra em The Care of Souls: “Não temos nada para dar aos outros que nós mesmos não tenhamos recebido primeiro”.

Isso inclui cuidar de nós mesmos, uma vez que pastores — mesmo aqueles com complexo de Messias — não podem alcançar onipotência, assim como não podem fingir ser oniscientes. Precisamos reservar tempo para ler as Escrituras e orar, para fazer amigos e contar com sistemas de apoio, para tirar férias e diminuir o ritmo, e para repetir continuamente as palavras de João Batista: “Eu não sou o Messias” (João 1.20).

O autocuidado envolve limites. Nestes dias de escândalo envolvendo o clero e de desconfiança em relação a instituições, nos esquecemos de que as pessoas ainda colocam seus pastores em pedestais, os quais às vezes ficam ainda mais altos devido à decepção sofrida em outros contextos. Os limites protegem os pastores de serem equivocadamente adorados como heróis. E também protegem as pessoas da igreja de nossas próprias tentações ao heroísmo.

No papel de servos dedicados ao cuidado pastoral, nós o fazemos na condição de pecadores que necessitam da mesma graça. Não somos o Senhor, mas temos acesso ao seu Espírito — o Consolador supremo que nos ajudará e estará conosco para sempre.

Daniel Harrell serviu recentemente como editor-chefe da CT e tem ministrado como pastor por mais de três décadas.

Traduzido por Mariana Albuquerque

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