A primeira coisa a ser cancelada foi a viagem que ela ganhou para Boston. Em seguida, foi seu estágio de verão na companhia de teatro local, seguido pelo curso de negócios que ela queria fazer para obter crédito na faculdade. Dezoito meses de decepções finalmente vieram à tona na semana passada, enquanto eu e minha filha de 17 anos estávamos discutindo uma possível viagem de formatura. “Mãe,” — interrompeu ela, com a voz levemente trêmula — “eu não consigo falar sobre isso. Não aguento ficar empolgada. Dói demais quando as coisas são canceladas”.

Os comentários dela me lembraram dos danos colaterais provocados pela pandemia: a capacidade de sonhar, planejar e ter esperança no futuro.

Como cristãos, acreditamos que a esperança é parte importante de nossa fé compartilhada, bem como de nossa caminhada pessoal. Mas as Escrituras sugerem algo mais radical: a esperança não é privilégio dos naturalmente otimistas; é responsabilidade de todos os que creem. A esperança é o meio pelo qual alinhamos não apenas nossos planos, mas também a nós mesmos com Deus. É assim que caminhamos em direção ao futuro que ele está preparando para nós, a fim de nos juntarmos a ele lá.

Talvez a passagem mais citada (e mais mal compreendida) sobre olhar para o futuro com esperança seja Jeremias 29.11: “‘Pois eu sei os planos que tenho para vocês’, declara o Senhor, ‘planos para fazê-los prosperar e não para prejudicar vocês, planos para lhes dar esperança e um futuro’”.

Os cristãos muitas vezes interpretam isso como uma promessa genérica de que “coisas boas estão à espera na próxima esquina”. Se apenas mantivermos uma atitude mental positiva, podemos saber que Deus tem #bênçãos guardadas.

Contextualmente falando, no entanto, esta promessa foi feita aos judeus recentemente exilados na Babilônia. O remanescente fiel acatou as advertências de Jeremias de se submeter ao julgamento vindouro, e agora, na Babilônia, eles receberam uma carta dele dizendo-lhes para se estabelecerem ali. Na esteira das incertezas e perdas, eles são convidados a assumir compromissos de longo prazo, como casar, construir casas e plantar jardins.

Imagine como seria difícil construir uma casa quando cada pedra os lembrava daquelas que eles perderam. Como seria difícil plantar sementes, sabendo quanto tempo levam para crescer e que eles ainda podiam estar na Babilônia quando isso acontecesse. Como seria difícil casar, constituir uma família e trazer novas vidas ao mundo, quando seus entes queridos acabaram de ser ceifados desta terra.

A promessa de Deus não é um ímã de geladeira. É um chamado para o árduo trabalho da esperança. E esse trabalho da expectativa, como podemos chamá-lo, é o que nos leva adiante de várias maneiras.

No mínimo, nos ensina a confiar em uma pessoa, e não em nossos planos. Como Tiago coloca, temos de dizer: “Se for a vontade do Senhor, viveremos e faremos isto ou aquilo” (4.15). Significa apoiar-se na verdade de que “o ser humano planeja seu caminho, mas o Senhor determina seus passos” (Provérbios 16.9).

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Mas confiar o futuro a Deus não significa negar nossas dificuldades presentes nem deixar de planejar por nós mesmos o futuro. Assim como devemos evitar a positividade superficial, também devemos evitar o fatalismo, especialmente quando revestidos de uma linguagem espiritual.

Durante uma recente coletiva de imprensa, por exemplo, o governador do Mississippi, Tate Reeves, sugeriu que os sulistas tinham menos medo da COVID-19 porque acreditavam no céu. “Quando você crê na vida eterna — quando crê que viver nesta terra é apenas um pontinho na tela”, disse ele, “então, você não precisa ter tanto medo das coisas”.

Embora nossa esperança em Deus seja uma esperança eterna, ela não ignora nossa vida presente como um “pontinho na tela”. Nossa esperança é tão relevante para nossas experiências presentes quanto para as futuras, precisamente porque nossa vida terrena carrega consigo expectativas e promessas próprias: envelhecer para ver os netos crescerem, realizar um projeto ligado a sua paixão ou deixar um legado para aqueles que virão depois de você. A esperança realiza o árduo trabalho de desejar essas coisas, mesmo quando as confiamos a Deus.

E aqui está algo ainda mais surpreendente. O capítulo 11 de Eclesiastes sugere que se render aos planos de Deus, na verdade, leva a mais planejamento, mais expectativa e a um senso cada vez maior de possibilidades na vida presente. Em vez de nos deixar desamparados, colocar nossa confiança em Deus nos dá o que precisamos para continuar trabalhando e esperando.

“Quem olha o vento não plantará; quem olha para as nuvens não colherá”, escreve o Pregador. “[Mas] assim como você não conhece o caminho do vento, nem como o corpo é formado no ventre materno, também não pode entender a obra de Deus, o Criador de todas as coisas” (Eclesiastes 11.4-5).

Aqueles que ficam à espera do “momento certo” — quando tudo estiver perfeito e não houver ameaça de perda — nunca planejarão nem plantarão nada. Mas o fato de não sabermos o que o futuro nos reserva também significa que não sabemos quais coisas boas Deus está planejando. Assim, o Pregador conclui, “lance sua semente pela manhã e à noite não deixe suas mãos paradas, pois você não sabe o que terá sucesso, se isto ou aquilo, ou se ambas as coisas serão igualmente boas” (v. 6 ).

É precisamente porque não conhecemos os planos específicos de Deus que devemos nos ocupar em imaginar uma centena de maneiras diferentes pelas quais ele possa estar trabalhando. Pois, enquanto alguns (ou até mesmo muitos) de nossos planos são fadados ao fracasso, os de Deus não são. Com isso em mente, podemos dar um passo de esperança e expectativa.

Como Andy Crouch observou recentemente: “O antídoto para tantas de nossas ansiedades [...] é, paradoxalmente, entrar em um cenário de risco mais amplo, no qual a ansiedade será menor porque nossa confiança, nossa obediência e, por fim, nossa maturidade serão maiores”.

Ao ceder o controle do futuro a Deus, garantimos que teremos um futuro. Pode não ser aquele que antecipamos nem mesmo aquele que escolheríamos, mas ficamos encorajados por saber que seus planos não podem ser frustrados.

Essa é a natureza surpreendente da esperança cristã. É uma esperança que passa pelo sofrimento e pela perda porque sabe que Deus determina nossos passos. É a mesma esperança que Jesus demonstrou quando “pela alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, desprezando a vergonha, e se assentou à direita do trono de Deus” (Hebreus 12. 2).

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No final, os exilados judeus podiam assumir compromissos de longo prazo, como casar, construir casas e plantar jardins, não porque haviam perdido a esperança de retornar a Israel, mas porque colocaram sua esperança em Deus. Eles confiaram que, um dia, ele cumpriria suas promessas, quando e como achasse adequado. Enquanto isso, eles poderiam seguir em frente com a vida que ele lhes dera. Eles podiam planejar com expectativa porque confiavam que Deus planeja com expectativa.

Da mesma forma, “as pessoas que acreditam na ressurreição, e no fato de que Deus criará um mundo totalmente novo, no qual tudo será finalmente restaurado”, diz N. T. Wright na obra Surprised by hope [Surpreendidos pela esperança], “estão incessantemente motivadas a trabalhar por este mundo novo no presente.”

Isso não diminui a dor de planos frustrados ou oportunidades perdidas. Mas significa que nossa confiança em Deus aumenta. À medida que ela aumenta e que Deus se mostra fiel, nossa capacidade de ter esperança virá à tona mais uma vez. Ao confiarmos o futuro a Deus, descobrimos que as perspectivas que temos das possibilidade ampliam-se e nossos sonhos renovam-se. Nós nos sentimos capazes de voltar à obra que ele nos confiou, acreditando que “aqueles que com lágrimas semeiam, com cânticos de júbilo ceifarão” (Salmos 126.5).

Hannah Anderson é autora de Made for More, All That’s Good, and Humble Roots: How Humility Grounds and Nourishes Your Soul.

Traduzido por: Mariana Albuquerque

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