Como podemos ver pelas imagens angustiantes que vêm do Afeganistão, a maioria dos que desejam fugir do Talibã jamais conseguirá escapar, mesmo muitos daqueles que ajudaram fielmente os Estados Unidos na guerra de vinte anos naquele país.

Alguns, porém, conseguirão chegar a outros países — entre eles, os Estados Unidos — em busca de abrigo e de começar uma nova vida. Como cristãos evangélicos, devemos decidir, mesmo antes da chegada de nossos novos próximos, ignorar as vozes dos que nos pedem para temermos esses refugiados.

Ao longo da história, aqueles que desejam rejeitar os refugiados adotam uma série de táticas diferentes. Às vezes falam deles usando termos que remetem à “impureza” — usando roedores ou insetos como metáforas — ou podem sugerir que os que estão em busca de asilo são, eles próprios, vetores de doenças. Outras vezes, embora com menos frequência, referem-se, tão grosseiramente quanto alguns o são, aos refugiados como uma “invasão” daqueles que estão vindo para “tomar nosso lugar” (sendo que esse “nós” quase sempre se refere a americanos brancos e nominalmente cristãos). Mas, talvez com maior frequência, falem dos refugiados como uma ameaça.

Assim como vimos acontecer com os refugiados sírios e curdos em anos anteriores, em breve ouviremos o clamor insistente daqueles que argumentam que os refugiados afegãos são terroristas, ou pelo menos podem ser, já que “não passaram por um processo de verificação” e não sabemos nada sobre eles . Essas afirmações não são verdadeiras.

Como Elizabeth Neumann — uma ex-autoridade da área de segurança nacional do alto escalão do governo Trump — demonstra, mesmo que um terrorista se dispusesse a jogar um longo jogo de vinte anos, fingindo ser uma figura a favor do Ocidente e contrária aoTalibã, o processo de verificação para todos esses refugiados é intenso e rigoroso, e faz uso de extensas checagens biométricas e biográficas. E, como Neumann também aponta, o tipo de retórica usada contra esses refugiados quase sempre vem acompanhada por um aumento nos crimes ou na violência cometidos contra essas pessoas.

Os refugiados que se mudarem para sua comunidade não estarão lá para aterrorizar você nem para “tomar seu lugar”. Em vez disso, eles estarão procurando a chance de começar uma nova vida — sem ter que ver seus filhos sendo assassinados e suas filhas sendo estupradas por déspotas sedentos de sangue. Dessa forma, eles serão como inúmeras outras pessoas que encontraram refúgio nos Estados Unidos. Você pode ver muitos deles no desfile de Quatro de Julho em sua cidade; muitas vezes são eles que agitam as maiores bandeiras americanas e choram com uma alegria patriótica.

Alguns desses refugiados são seus irmãos e irmãs em Cristo. Outros serão seus futuros irmãos e irmãs em Cristo. Quer sejam quer não, porém, cada um deles reflete para nós a imagem de um Deus que fez a humanidade à sua imagem e ama a cada um de nós.

O medo dos refugiados tem como objetivo nos manter em um estado de alerta que vê tudo e todos que não sejam imediatamente familiares a nós como uma ameaça. Isso mantém telespectadores sintonizados em canais de televisão, pessoas ligando para programas de rádio, doadores enviando dólares para políticos e grupos de interesse. Esse tipo de anulação do sistema límbico pode fazer com que mesmo cristãos que conhecem sua Bíblia se esqueçam até dos mais singelos mandamentos que Jesus nos deu para amar e cuidar dos vulneráveis.

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Como Martin Luther King Jr. escreveu, em 1963, o sacerdote e o levita da parábola de Jesus, que se desviaram do homem espancado ao lado da estrada para Jericó, provavelmente não se sentiam pessoas cruéis ou sem coração. Eles deviam estar com medo — e de forma compreensível. O caminho para Jericó era um local afastado e perigoso, propício para criminosos violentos. Aqueles que passaram apressados [pelo homem espancado] podiam muito bem presumir que seriam atacados na próxima curva.

“Talvez os ladrões ainda estivessem por perto”, escreveu King. “Ou talvez o homem ferido no chão fosse um impostor, que desejava atrair para si os viajantes que por ali passavam para atacá-los de forma rápida e fácil. Imagino que a primeira pergunta que o sacerdote e o levita tenham feito foi: ‘Se eu parar para ajudar este homem, o que acontecerá comigo?’ ”

Há ocasiões em que somos chamados a um amor genuinamente perigoso por nosso próximo. Vemos isso no cuidado do samaritano com o homem ferido na estrada para Jericó — ou na igreja primitiva, que superou seu medo de que o terrorista perseguidor da igreja, chamado Saulo de Tarso, pudesse estar fingindo ser um discípulo para fazer mal a eles como alguém de dentro da igreja (Atos 9.26).

No caso dos refugiados afegãos, não enfrentamos nada que se aproxime desse nível de perigo para nós mesmos.

O medo às vezes pode calar até mesmo nossas convicções mais profundas. Começamos a agir de maneiras que visam a autoproteção e nos fazem atacar indiscriminadamente até mesmo ameaças imaginárias. A Bíblia, porém, diz que o amor perfeito lança fora o medo (1João 4.18). Isso deve nos fazer lembrar que, quando nos pegamos perguntando “Quem é meu próximo?”, estamos fazendo a pergunta errada.

Russell Moore lidera o Public Theology Project [Projeto de Teologia Pública] da Christianity Today.

Traduzido por Mariana Albuquerque

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