Tyler VanderWeele, especialista em saúde pública e coautor da matéria de capa da nossa edição impressa de novembro de 2020, analisou recentemente como quatro categorias de escolas — as públicas, as privadas, as religiosas e o homeschooling — podem afetar o bem-estar dos adolescentes a longo prazo.

VanderWeele e sua equipe de pesquisadores de Harvard examinaram uma grande quantidade de dados, coletados ao longo de mais de uma década, que acompanharam o desenvolvimento de 12 mil crianças, filhos de enfermeiras, até a idade adulta. O estudo longitudinal pesquisou tendências de saúde social, física e mental em todo o grupo — tais como abuso de substâncias, ansiedade/depressão, envolvimento na comunidade e atividade sexual.

A análise da equipe foi publicada recentemente na revista científica digital PLoS ONE, e algumas de suas descobertas foram surpreendentes.

Ao comparar os principais indicadores de saúde, os pesquisadores encontraram pouca diferença entre o bem-estar, a longo prazo, dos adolescentes que frequentaram uma escola pública e aqueles que frequentaram uma escola privada. (Todas as crianças que participaram tinham entre 9 e 14 anos, quando o estudo começou.)

“Nós não tínhamos expectativas claras, mas certamente não esperávamos encontrar basicamente nenhuma diferença — que foi o que encontramos”, disse VanderWeele. “Encontramos relativamente pouca diferença quando comparamos escolas públicas e privadas, dentre toda uma série de resultados.”

Houve, no entanto, uma diferença notável entre as crianças que frequentaram escolas públicas e aquelas que foram educadas em casa.

“Encontramos muitos resultados positivos e benéficos do homeschooling”, disse VanderWeele.

Seus dados mostraram que as crianças educadas em casa eram mais propensas a se voluntariarem, a perdoarem os outros, a possuirem um senso de missão e propósito e a terem notadamente menos parceiros sexuais ao longo da vida.

Essas crianças também eram 51% mais propensas a frequentarem cultos religiosos com regularidade na idade adulta. “É bem possível que muitos pais que adotaram o homeschooling eram religiosos ou tenham feito essa opção por motivos religiosos, mas infelizmente não temos dados sobre o conteúdo do currículo”, disse VanderWeele.

Os pesquisadores encontraram apenas um efeito adverso do homeschooling: essas crianças eram 23% menos propensas a conquistarem um diploma universitário do que as crianças que frequentaram escolas públicas e privadas (as quais tiveram taxas semelhantes de conclusão da faculdade nesta amostra). “Isso pode apontar para a necessidade [de] focar mais na preparação para a faculdade”, comentou VanderWeele.

Outra surpresa foi como a experiência nas escolas públicas se compara à educação em escolas religiosas privadas. Na longa lista de métricas de saúde, os pesquisadores encontraram apenas uma diferença marginal em alguns resultados — cerca de 10% a 15% — entre as crianças que foram enviadas para escolas públicas e aquelas que frequentaram escolas afiliadas a alguma religião.

As crianças que frequentavam escolas religiosas eram marginalmente mais propensas a se registrarem para votar, menos propensas a serem obesas e mais propensas a terem menos parceiros sexuais ao longo da vida até chegarem à idade adulta.

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Em contrapartida, elas eram um pouco mais propensas a se envolverem em bebedeiras.

“Pode ser que algumas crianças sintam que querem se rebelar, se estiverem frequentando uma escola religiosa por toda a vida”, disse VanderWeele. “Não fomos capazes de determinar bem o porquê, mas algo assim poderia ser a explicação.”

Na frequência à igreja na idade adulta, os alunos educados em casa também saíram à frente dos outros. As crianças que frequentaram escolas religiosas eram apenas um pouco mais propensas a frequentarem cultos religiosos quando jovens adultos do que aquelas que frequentaram escolas seculares, privadas ou públicas — e muito menos propensas do que aquelas que foram educadas em casa. (Vale a pena destacar: o estudo não analisou a preservação da fé entre alunos cristãos, apenas a frequência religiosa dentre todo o grupo.)

O demógrafo Lyman Stone adverte para não interpretarmos os resultados deste único estudo como prova de um nexo causal definitivo — [não devemos] dizer, por exemplo, que o ensino em casa ou que o ensino em escolas religiosas, por si só, são causas diretas da maior frequência a uma religião —, mas sim reconhecer que esse conjunto de dados está relacionado por associação.

“A ligação entre a educação em escolas religiosas — e provavelmente também a educação em casa — e a frequência a cultos religiosos na idade adulta é causal. Este estudo não mostra que é causal, mas é. E sabemos disso por outros estudos”, diz Stone, referindo-se a pesquisas mais antigas, que analisaram na França a educação católica e a educação islâmica.

“O ambiente ao qual uma criança é exposta causa mudanças em seu comportamento religioso na idade adulta”, diz Stone, e “os resultados [deste estudo] são consistentes com isso”.

No entanto, as diferenças entre escolas públicas [seculares] e privadas religiosas foram muito menores do que VanderWeele esperava, com base nas tendências que ele descobriu em pesquisas anteriores que usaram o mesmo conjunto de dados.

“Nosso trabalho anterior havia indicado que a frequência a cultos religiosos durante a adolescência era realmente importante e moldava a saúde e o bem-estar de várias maneiras”, disse VanderWeele. Essa conclusão ainda é válida. “Mas os efeitos da educação em escolas religiosas foram muito menores, o que não era exatamente o que esperávamos.”

“O que descobrimos foi que a frequência a cultos religiosos faz uma diferença maior do que a educação em escolas religiosas”, disse ele. “A frequência a cultos religiosos tem efeitos benéficos para todos os diferentes tipos de escola e tem efeitos mais impactantes do que a educação em escolas religiosas.”

Em outras palavras, as crianças que cresceram frequentando a igreja regularmente tiveram uma classificação bem mais alta no quesito de bem-estar geral quando jovens adultos do que aquelas que frequentaram uma escola religiosa, mas não frequentaram cultos religiosos durante seus anos de formação.

E embora “o efeito da educação em escolas religiosas por si só não pareça diferir drasticamente, quando comparamos aqueles que frequentavam cultos religiosos versus os que não frequentavam”, explicou Vanderweele, “para aqueles que frequentavam ambos (escolas religiosas e cultos religiosos], a frequência a cultos religiosos na juventude foi claramente a força predominante na formação da saúde e do bem-estar, pelo menos no que diz respeito a dados e experiências de 20 anos atrás.”

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Em estudos anteriores, VanderWeele descobriu que a frequência semanal a cultos na idade adulta estava associada a “cerca de 30% de redução na mortalidade por todas as causas, 30% de redução na incidência de depressão [e] uma redução de cinco vezes na taxa de suicídios”.

Além disso, “a frequência regular a cultos ajuda a proteger as crianças dos ‘três grandes’ perigos da adolescência: depressão, abuso de substâncias e atividade sexual prematura”, escreve VanderWeele em seu último artigo para a Christianity Today . “As pessoas que frequentaram a igreja na infância também são mais propensas a crescerem felizes, a perdoarem, a terem um senso de missão e propósito e a se voluntariarem”.

“Então, independentemente do tipo de escola [em que a criança estudar]”, diz VanderWeele, “ir a cultos religiosos, tanto na adolescência quanto na idade adulta, é algo benéfico”.

Traduzido por Mariana Albuquerque.

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