Eu me espremo no assento do meio do avião, pedindo desculpas educadamente para a pessoa que se levantou do assento do corredor para eu entrar. Enquanto acomodo minha mochila no chão, tentando decidir se devo pegar meus fones de ouvido com cancelamento de ruído, cumprimento a mulher mais velha que está no assento da janela ao meu lado. Opto pelo meu livro, empurrando minha mochila para debaixo do assento à minha frente. Cinto de segurança afivelado, eu me acomodo para meu último voo do dia, com a expectativa de avançar bastante no capítulo que me espera.

“Você é de Nashville?”, a mulher pergunta.

“Não, senhora”, eu respondo. “Sou de Colorado Springs. Estou indo para Nashville para uma conferência.”

Ela sorri e assente. Nós dois desviamos o olhar. Eu mexo nas páginas do meu livro; ela volta para suas palavras cruzadas. Sinto que devo rebater a bola e perguntar a ela de onde é. Ela responde os detalhes perguntados, e agora estou certo de que toda a conversa necessária está encerrada.

Então, ela faz a pergunta: “Afinal, o que você faz?”

Eu suspiro, não de forma audível, mas certamente em meu coração. Eu deveria ter pegado meus fones de ouvido, não meu livro, começo a supor.

Considero por um instante dar uma resposta genérica, sabendo que a simples menção à minha vocação pode ser uma verdadeira trava na conversa, mas prefiro a verdade.

“Sou pastor”.

Ela abre um sorriso: “Eu sabia!”

“Sério?”. Fico genuinamente surpreso.

“Sim!”, ela diz com um aceno de cabeça e um sorriso confiante.

“Como … ?”

“Você parece pastor.”

Eu rio, analisando brevemente meu visual: jeans azul, tênis de cano alto, uma camiseta preta e uma jaqueta bomber verde-oliva. Sim, talvez eu esteja um pouco clichê no momento.

À medida que nossos sorrisos arrefecem, não posso deixar de me perguntar: Será que pareço um pastor? Devo tomar isso como um elogio?

Então, olho para as palavras cruzadas que ela segura — são sobre curiosidades da Bíblia.

Ah, ela quis fazer um elogio — penso eu.

Um cenário sombrio

Os pastores não ocupam mais um lugar de estima nas comunidades. De acordo com o relatório State of Pastors do Barna Group (2017), apenas cerca de um em cada cinco americanos pensa em um pastor como alguém muito influente em sua comunidade, e cerca de um em cada quatro não acha que um pastor seja muito influente ou nem mesmo influente. A verdade é que, influentes ou não, muitos americanos não querem ouvir o que os pastores têm a dizer. Em 2016, o Barna Group descobriu que apenas 21% dos americanos consideram os pastores “muito confiáveis” em relação a “questões importantes de nossos dias”. Mesmo entre aqueles que a pesquisa definiu como evangélicos, o número só sobe para um pouco mais da metade. Pense nisso: quase metade dos evangélicos americanos não vê seus pastores como uma voz de autoridade para navegar pelas águas dos assuntos atuais.

Em um novo estudo que o Barna Group e eu fizemos em 2020, para o meu livro The Resilient Pastor, descobrimos que a situação pode estar piorando. Apenas 23% dos americanos disseram que “definitivamente” veem um pastor como uma “fonte confiável de sabedoria”. Mesmo entre cristãos, esse número só sobe para meros 31%. Menos de um terço dos cristãos disseram que “definitivamente” consideram um pastor uma “fonte confiável de sabedoria”. Como é de se esperar, apenas 4% dos não-cristãos pensam nos pastores dessa maneira. Esse é um cenário bastante sombrio.

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Image: Fonte: Barna Group / The Resilient Pastor

Viver na era digital trouxe mais complicações a esse quadro. Em certo sentido, a internet tem sido um grande equalizador, rompendo as hierarquias tradicionais de poder e concedendo a qualquer um o acesso e o potencial de acumular seguidores. Qualquer um pode postar; qualquer um pode pesquisar; qualquer um pode aprender. O acesso à informação teve um efeito democratizante, tanto que regimes autoritários em todo o mundo implementam a censura pesada e firewalls.

Mas o acesso à informação é uma faca de dois gumes. Ele não só derruba ou desestabiliza as estruturas de autoridade existentes. Também cria novas formas de estabelecer autoridade e dá origem a novas figuras de autoridade, como influenciadores do Instagram, blogueiros, vídeos e memes que circulam pelo Facebook. E com esses novos “líderes” vêm as novas “tribos”. Isso pode levar à perigosa suposição de que todas as visões são igualmente válidas. Cada pessoa se torna árbitro da própria verdade religiosa; cada um faz o que é certo aos próprios olhos — ou aos olhos do podcaster que ouviu pela manhã.

Image: Fonte: Barna Group / The Resilient Pastor
O convite

Seria tentador focar em como os pastores podem recuperar sua credibilidade. É claro que há necessidade disso. Levar a sério nossa vocação significa reconhecer o peso de nossas palavras, a natureza sagrada de nossos deveres e a importância de uma vida de integridade. A credibilidade em declínio dos pastores é uma má notícia para a igreja. Se vamos convidar alguém a nos seguir como seguimos a Cristo, temos de trabalhar para recuperar a confiança de seguidores relutantes. Significará fazer a coisa certa, pelos motivos certos e por muito tempo.

Tudo isso é verdade. Mas é importante que não tenhamos pressa em “consertar” as coisas. Temos a oportunidade de reconhecer um convite em meio a isso — uma frase que meu orientador espiritual já usou comigo várias vezes, sempre que me deparo com uma situação da qual não gosto, especialmente uma situação que está além do meu controle. É nesse ponto que, após a tempestade, ouvimos o sussurro do Espírito nos fazendo um convite — um convite que, segundo sugiro, é moldado por três palavras: responsabilidade, prestação de contas e humildade.

Responsabilidade. Estou mais interessado em nossa disposição de assumir a responsabilidade por termos perdido nossa credibilidade, do que em encontrar maneiras de recuperá-la. Devemos encarar a realidade de que contribuímos para essa crise de credibilidade. Sim, há ventos contrários na cultura que mudaram a posição social ou o poder de influência cultural de um pastor. Mas nós também contribuímos para bagunçar as coisas. De pequenas igrejas rurais a megaigrejas, descobrimos muitos pastores tirânicos e hipócritas, alcoólatras e mulherengos. A crise de credibilidade é um sintoma. O mau uso da autoridade é a causa, a raiz do problema.

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O Antigo Testamento reflete sobre o uso do poder na forma como conta a história do primeiro rei de Israel. A história de Saul revela três maneiras clássicas de fazer mau uso da autoridade: usá-la em benefício próprio, ultrapassar os limites de nossa autoridade e exercê-la de forma imprudente.

O profeta Samuel advertiu que um rei “reivindica (1Samuel 8.11-17) certas coisas. Como temos feito essas reivindicações ao nosso povo? Como reivindicamos seu tempo, suas esperanças, sua confiança e usamos isso para nossos fins pessoais? Talvez tenhamos tratado pessoas de bom coração que servem em nossas igrejas como se fossem meras engrenagens na máquina da nossa ambição. Estamos todos muito dispostos a reivindicar o tempo delas, mas somos lentos em lhes doar do nosso.

Quando rei, Saul desgraçadamente decidiu agir como sacerdote e oferecer sacrifícios, ultrapassando os limites de sua autoridade (1Samuel 13). Na tentativa de sermos líderes fortes, podemos assumir funções para as quais não temos treinamento nem chamado para desempenhar. Por exemplo, se falamos com desdém da saúde mental, dizendo do púlpito que uma pessoa que está ansiosa simplesmente precisa orar mais, corroemos nossa própria credibilidade, ao abusar de nossa autoridade.

Saul também usou o poder de forma imprudente. Depois de vencer uma batalha, ele ordenou que ninguém comesse nada, jurando matar quem o fizesse (1Samuel 14). Seu próprio filho involuntariamente colocou seu voto tolo à prova. Com que frequência os pastores lucram com o capital da confiança de uma congregação chamando seus membros para uma guerra cultural? Anunciamos com certeza de que “lado” Deus está e, ao fazê-lo, manchamos o nome de Deus e diminuímos nossa credibilidade.

Pode ser que nem todo pastor faça mau uso da autoridade dessa maneira. Mas todos nós podemos dar uma boa olhada em nós mesmos e perguntar ao Senhor que dose de responsabilidade devemos assumir pela perda da credibilidade entre os pastores.

Prestação de contas. O declínio da credibilidade significa que muito pouco nos será confiado. As pessoas vão verificar nossas afirmações e comparar nossas conclusões exegéticas. Mas isso pode ser uma coisa boa. Se tivermos feito nossa lição de casa, isso será notado. E se estivermos agindo de forma impulsiva, as pessoas provavelmente perceberão.

Quando surge um grande problema social, é apenas uma questão de tempo até que alguém poste nas mídias sociais o que os pastores devem dizer sobre isso nos cultos de domingo. Se o seu pastor não se pronunciou sobre _____, então, é hora de encontrar uma nova igreja, nos dizem. A mídia e a multidão definem os critérios para o que um pastor deve ou não dizer. De qualquer forma, o pastor não é mais o locus da autoridade ou da credibilidade.

Eu não sou fã deste desdobramento. Não gosto que pastores respondam à pressão de um tópico de tendências no Twitter. Mas, nesse ponto, também temos uma oportunidade de acatar a prestação de contas nesta nova era de visibilidade. O convite que a credibilidade pastoral em declínio nos faz pode significar um movimento em direção a uma maior transparência. Por exemplo, de que modo podemos mostrar à igreja como suas ofertas e dízimos estão sendo gastos? Como nosso tempo e nossa energia podem ser controlados? Se assumir responsabilidade tem a ver com confissão, adotar a prestação de contas tem a ver com uma mudança de caminhos.

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Tem mais uma palavrinha...

A fonte e a forma

Humildade. Essa é a última palavra que molda a nossa resposta. Acima de tudo, a crise de credibilidade deve nos deixar de joelhos. Devemos nos humilhar e retornar à fonte de nossa autoridade.

Durante os séculos da Idade Média, o pastor — o padre — era uma pessoa ungida com poderes aparentemente especiais. Eles podiam curar os enfermos através da oração e da unção com óleo, podiam ouvir a Deus e interpretar as Escrituras, e podiam transformar pão e vinho no corpo e sangue de Cristo.

Mas, à medida que as reformas levaram ao racionalismo, o pastor no Ocidente pós-iluminista passou a encontrar autoridade em seu aprendizado. Andrew Root em seu livro The Pastor in a Secular Age mapeia a mudança de percepção dos pastores na América, observando que “o pastor não tinha mais poderes mágicos, mas podia ler; ele não era mais um super-herói, mas agora era apenas um homem instruído.” Jonathan Edwards, por exemplo, dedicava-se a estudar 13 horas por dia! Isso deu início a uma longa tradição em que a educação — os seminários certos e os diplomas certos — servem como base para a credibilidade.

Mas Root observa outra mudança, que começou no final do século 20: a autoridade dos pastores começou a vir das instituições que eles criavam. “Assim como o poder do cargo de um CEO deriva da força social ou econômica da empresa, o poder do pastor também depende do tamanho e da influência da congregação.” Com os sermões longos potencialmente vistos como um prejuízo e a educação em seminários como uma potencial obrigação por alguns, os pastores começaram a buscar outras maneiras de estabelecer sua presença em uma comunidade. A resposta estava em construir igrejas fortes e influentes.

Mas nenhuma dessas coisas é a verdadeira fonte da nossa autoridade. A fonte da nossa autoridade, em última análise, não vem de nossa popularidade, nem de nossa influência (embora sem influência, dificilmente alguém poderia ser um líder), nem de nossa educação (embora treinamento e preparação sejam uma coisa boa), nem das instituições que lideramos (ainda que criar instituições faça parte de ter presença e lugar). A fonte de nossa autoridade é Jesus, e ela vem quando estamos em sua presença.

Mas isso não é tudo. Estando com Jesus, aprendemos dele para que serve o poder. Repensamos como nossa autoridade é usada.

Jesus, “sabendo que o Pai havia entregado todas as coisas em suas mãos, e que viera de Deus e para Deus voltaria” (João 13.3, NVI), levantou-se, tirou sua capa, pegou uma toalha e uma bacia, e começou a lavar os pés de seus discípulos.

Jesus sabia de onde tinha vindo e para onde voltaria. Jesus estivera com o Pai e estava voltando para o Pai. Jesus sabia que a missão e o ministério eram o que o Pai lhe havia confiado. E assim, ele assumiu a forma de servo e lavou os pés dos discípulos. Quando se conhece a fonte de sua autoridade, entende-se o propósito dela.

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Pastores, se nossa autoridade realmente viesse de nossa instrução ou do tamanho de nossas instituições ou ainda do alcance de nossa influência, então, poderíamos nos vangloriar disso. Nós fizemos isso. Nós conquistamos isso. Trabalhamos por isso.

Contudo, se reconhecermos essa autoridade como uma dádiva, se entendermos que a única autoridade que temos é aquela que vem da unção do Espírito do Senhor, então, é esse mesmo Espírito que trabalha para formar Cristo em nós.

A fonte da autoridade determina a sua forma. Nossa autoridade vem de Jesus, e deve ser usada como Jesus usou seu poder: devemos nos esvaziar em serviço e amor abnegados. Como Paulo escreveria mais tarde — e encontra-se parafraseado na obra A Mensagem — nossa “força é para o serviço, não para o status” (Romanos 15.1). Resgatar essa perspectiva é começar a recuperar a credibilidade diante de Cristo e de sua igreja.

A credibilidade é o resultado da boa e correta mordomia do poder — uma mordomia que entende o propósito de seu poder, os limites de sua autoridade e que age com a devida humildade.

Responsabilidade. Prestação de contas. Humildade. Não posso prometer que isso nos ajudará a recuperar a credibilidade. Mas, pela graça de Deus, nos tornará mais semelhantes a Cristo.

Glenn Packiam é pastor sênior associado da New Life Church, em Colorado Springs. Ele também atua como membro sênior do Barna Group e professor adjunto no Seminário de Denver. Seu último livro é The Resilient Pastor. Partes deste artigo são adaptadas da obra The Resilient Pastor, de sua autoria (Baker Books, uma divisão do Baker Publishing Group, © 2022). Usado com permissão.

Este artigo é parte da nossa edição de primavera da CT Pastors, que trata da saúde da igreja. Você pode encontrar a edição em inglês completa aqui.

Traduzido por Mariana Albuquerque.

Editado por Marisa Lopes.

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