Esta semana, minha turma de Escola Dominical, formada por alunos brilhantes de 12 e 13 anos de idade, como de costume me fez uma pergunta difícil: por que a Páscoa caiu no aniversário do Evan no ano passado, mas está caindo no aniversário da Abby este ano? Embora eu não pude responder na hora, sabia que tinha uma arma secreta no meu escritório — especialmente guardada para essa ocasião: um pequeno artigo de Farrell Brown, um professor de química aposentado com interesse nas interações históricas entre ciência e religião. Como um serviço de utilidade pública para aqueles que ainda estão coçando a cabeça com essa variação do calendário da Páscoa, apresento a seguir a resposta do Dr. Brown à pergunta dos meus alunos de Escola Dominical — e, como brinde, apresento ainda a história de por que as datas da Páscoa também diferem entre diferentes partes do mundo:

A data do domingo de Páscoa, chamada “festa móvel” no calendário da igreja cristã, pode parecer misteriosa para muitos que a celebram. Existem 35 datas possíveis na temporada de primavera (no hemisfério norte) para celebrar esse evento único. Por que essa variação de datas? A resposta vem de decisões tomadas vários séculos após o início do cristianismo.

E por que a maioria das Igrejas Cristãs Ortodoxas Orientais observam a Páscoa ocasionalmente no mesmo domingo que o resto da cristandade, e outras vezes até cinco semanas depois? Essa resposta é relacionada principalmente à reação de diferentes pessoas a um decreto papal de séculos atrás.

Nossa primeira parada, nesta aventura em busca da Páscoa errante, é um rápido estudo de como os calendários eram usados nas terras bíblicas, por volta de 30 d.C. Embora o calendário juliano ou solar do Império Romano estivesse em vigor desde 45 a.C., ele não suplantou o calendário lunar que era o mapa e a bússola de 2 mil anos de história judaica. (Um ano lunar tem 12 ciclos lunares de 29,53 dias cada ou 354,36 dias, enquanto um ano juliano tem 365,25 dias, com um dia bissexto a cada quatro anos). O calendário juliano funciona com três anos de 365 dias e um ano de 366 dias a cada quatro anos.

A incongruência dos dois calendários prejudicou registros históricos no Mediterrâneo Oriental e arredores, desde o início dos sistemas duais. E para aumentar a confusão, os seguidores de Jesus falharam em registrar a data exata da ressurreição de seu Senhor. Muitos daqueles primeiros crentes esperavam que Jesus voltasse logo, uma esperança que (segundo alguns estudiosos acreditam) tornou tais aniversários sem importância para eles. Por essas e outras razões, uma data única e universalmente aceita para a celebração do evento teve pouca ou nenhuma chance.

O acordo de Niceia

Trezentos anos depois, no reinado do imperador romano Constantino, o cristianismo estava começando a se espalhar pelo Império. Como se esperava que qualquer religião que se prezasse tivesse suas festas religiosas e seus dias de guarda, uma data para celebrar a Páscoa tornou-se naquele momento uma prioridade. De fato, este foi um dos oito principais temas analisados por padres e bispos no primeiro Concílio Ecumênico da Igreja, no ano 325, em Niceia (atual Turquia). Um cânone unanimemente aceito garantiu que a Páscoa nunca cairia no início da Páscoa judaica, talvez um reflexo da animosidade cristã em relação ao povo judeu, por seu papel percebido na morte de Jesus.

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No entanto, cada grupo da igreja presente em Niceia parecia ter uma opinião diferente sobre a data da Páscoa. A maior divisão dava-se entre as igrejas orientais de Antioquia e Síria, que ainda dependiam do calendário judaico ou lunar para determinar a data da Páscoa, e as igrejas ocidentais de Alexandria e Roma, que empregavam o eficiente calendário solar. O acordo resultante, conforme a declaração comum, foi que a Páscoa cairá no primeiro domingo após a primeira lua cheia depois do equinócio de primavera. (O equinócio de primavera é uma das duas épocas do ano em que o sol cruza o Equador celeste e a duração do dia e da noite são aproximadamente iguais.)

Isso explica o intervalo de 35 dias em que a Páscoa pode ocorrer (de 22 de março a 25 de abril, inclusive): o primeiro domingo após a primeira lua cheia depois do equinócio de primavera pode ocorrer de 2 a 37 dias após o equinócio.

Devemos essa fórmula complicada, com sua atenção ao sol (o equinócio) e à lua (fase cheia), a um acordo político entre as facções reunidas de Niceia. Os cristãos orientais introduziram as fases irregulares da lua nos cálculos — causando assim esse efeito “variável” da data — porque queriam que seu calendário lunar mantivesse um papel histórico (embora problemático) na determinação de datas importantes.

Uma mudança estupenda

Por mais complicado que fosse, o acordo de Niceia governou a comemoração da ressurreição de Jesus pela igreja pelos próximos 900 a 1.000 anos. Mas este não foi o fim da história. Infelizmente, o calendário solar juliano continha uma falha não trivial que despontou à medida que os séculos se arrastavam. Essa falha afetou a celebração da Páscoa, e sua correção causou grande conflito e consternação entre os cristãos.

Em meados de 1.200, um frade inglês chamado Roger Bacon observou que a data da Páscoa, além de sua variação prescrita, estava se distanciando cada vez mais na estação da primavera. Os astrônomos agora sabiam que a duração do ano solar estava mais próxima de 365.242 dias do que dos 365.250 dias supostos pelo ano do calendário juliano. Em 1.000 anos, o calendário juliano contara 365.250 dias, enquanto, na realidade, 365.242 dias solares haviam decorrido. Bacon percebeu que cada ano juliano “entrou” ligeiramente no próximo ano solar, e que qualquer data estava mais adiantada em tempo real do que o calendário suporia. O calendário feito pelo homem pode dizer uma coisa, mas as estações da natureza não se deixam enganar! Embora a pequena incompatibilidade tenha causado uma mudança de apenas 11 minutos por ano, isso se acumulou — dos dias de Júlio César aos dias de Roger Bacon — em 9 preocupantes dias. As petições de Bacon para corrigir o desvio foram ignoradas.

Em meados dos anos 1500, o Papa Gregório XIII reconheceu as consequências da variação e confiou a solução a um matemático e astrônomo jesuíta, Cristóvão Clavius. O papa esclarecido endossou as descobertas de Clavius em 1563, no Concílio de Trento, e 19 anos depois, em 4 de outubro de 1582, Gregório assinou uma bula papal promulgando o novo calendário que leva seu nome — o calendário gregoriano.

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O calendário de Gregório inseriu uma correção no calendário juliano daquela época em diante. Engenhosamente, ele cortou 8 dos 250 dias bissextos (29 de fevereiro) que ocorrem em cada 1.000 anos do calendário juliano, aproximando assim com mais precisão da média do número de dias em um ano — ou seja, 365.242. A regra exata é que, na troca de século, um dia bissexto deve ser observado apenas quando o número do século for totalmente divisível por 400. Em outras palavras, a observância de um dia bissexto em 2.000 foi um evento especial. Isso não acontecerá novamente em uma troca de século até 2.400.

Mais problemas para a Páscoa

Embora o calendário gregoriano tenha resolvido o problema para os anos futuros, restava a questão crítica de corrigir o “deslize” do calendário anterior. Em 1582, o descompasso cumulativo do ano do calendário juliano em relação ao ano solar totalizou 10 dias. A bula papal abordou esse problema de maneira prática, mas provocativa: avançou o calendário juliano em 10 dias. Os dias do calendário de 5 a 14 de outubro de 1582 simplesmente desapareceram!

Esta parte do decreto de Gregório trouxe confusão e conflito em toda a cristandade. A Páscoa não apenas continuaria sua variação, mas também iria variar de maneira diferente em diferentes regiões. A Alemanha, com sua mistura de enclaves católicos e protestantes, foi particularmente atingida. Por 193 anos, a Páscoa foi celebrada de forma variada em momentos diferentes por diferentes estados germânicos. A Igreja Anglicana entrou na briga, resistindo à mudança por quase 170 anos.

Algumas jurisdições dentro da Igreja Ortodoxa Oriental mantêm até hoje o calendário juliano para determinar as datas da festa. Esse calendário está agora 13 dias atrás do calendário gregoriano e a diferença, no ano 2.100, será de 14 dias. Para datas festivas fixas, o atraso determina exatamente a data ortodoxa; por exemplo, o Natal ocorre em 7 de janeiro (até 2.100). Para datas festivas móveis, a situação é mais complicada. Ambas as fases da lua e do equinócio estão em jogo, e o equinócio definido eclesiasticamente em Niceia, 21 de março, torna-se 3 de abril no calendário gregoriano. Uma explicação detalhada está além do escopo deste resgate da história. Mas é interessante notar um acordo em toda a cristandade sobre as datas da Páscoa em 2.001 e 2.004.

Para saber mais sobre a Páscoa e os calendários, veja as seguintes fontes:

Duncan, David Ewing. “Calendar” (NY: Avon Books, Inc., 1998).

Gould, Stephen Jay. “Questioning the Millennium” (NY: Harmony Books, 1996).

Thurston, Hebert. “Catholic Encyclopedia: Easter Controversy”. Extraído de http://www.newadvent.org/cathen/05228a.htm.

Lewis Patsavos. “The Calendar of the Orthodox Church”. Extraído de www.goarch.org/en/ourfaith/article7070.asp

Farrell Brown é Professor Emérito da Clemson University e reside na região de Clemson. Ele pode ser contatado em farrelb46@bellsouth.net.

Copyright©Christianity Today. Clique para obter informações sobre reimpressão.

Traduzido por Mariana Albuquerque.

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