Sempre foi popular nos círculos cristãos reivindicar a direção de Deus, quando se trata de decisões pessoais e profissionais. Nos últimos anos, porém, algumas figuras de destaque foram notícia por alegarem ter ouvido o Senhor em suas previsões sobre a última eleição presidencial e suas escolhas de mudar ou deixar suas denominações.

Existe algum pastor que, em um momento ou outro, já não tenha sido informado de que a razão pela qual um membro da igreja está fazendo algo é porque “Deus o está guiando”? Essa frase tende a ser o ponto final de uma conversa para a maioria dos líderes cristãos. Afinal, se o Deus Todo-Poderoso, o Criador e Senhor do universo, falou, quem somos nós para objetar?

A verdade é que Deus fala hoje. Ele criou o universo por meio de sua palavra. “Assim diz o Senhor” é o bordão repetido pelos profetas de Israel. A distinção entre o Deus de Israel e qualquer outro deus do mundo antigo era o fato de que o Senhor fala — ao passo que os ídolos não podem fazê-lo (Sl 115.4-5). E é um sinal de juízo divino em toda a Escritura sempre que Deus para de falar (1Sm 3.1).

Ao contrário do Deus do deísmo, o Deus da Bíblia está pessoalmente envolvido nos assuntos terrenos, liderando sua igreja e cuidando de seus filhos. Uma das principais maneiras pelas quais ele lidera é falando. Nosso trabalho é aprender a reconhecer sua voz, ouvir bem e discernir sabiamente como obedecer ao que ele está dizendo.

Mas aqueles de nós que são da liderança da igreja muitas vezes ficam imaginando como funciona o controle de veracidade nessa área. Ou seja, como podemos avaliar se uma palavra é mesmo de Deus ou não — e quais critérios de verificação devemos considerar, quando o Senhor parece estar falando conosco ou com alguém sob nossos cuidados?

Eu sei pessoalmente que Deus fala. Minha vida foi drasticamente transformada por uma palavra do Senhor.

Eu era casado, tinha filhos pequenos, era presbítero em nossa pequena igreja e estava prosperando no meu emprego dos sonhos: ser professor no curso de direito, no programa de MBA da Ohio State University (OSU). Mas depois de me converter a Cristo aos 18 anos, sempre me senti atraído pela ideia do ministério em tempo integral — só que nunca tive certeza de que Deus havia me chamado para isso. Um amigo me desafiou a pedir um sinal ao Senhor. “Os pastores o tempo todo não dão o devido valor a Gideão”, disse ele, “mas Deus respondeu ao seu pedido”.

Assim, enquanto participava de uma equipe ministerial em uma conferência, com a Vineyard, na Inglaterra, decidi pedir a Deus um sinal. Não dei detalhes específicos ao Senhor — apenas pedi que ele falasse comigo antes que eu ligasse para minha esposa, dali a três dias. Primeiro dia, nada. Segundo dia, nada.

No terceiro dia, o orador principal da conferência, John Wimber, começou sua palestra da noite dizendo: “Alguns de vocês aqui estão orando sobre o ministério em tempo integral. Você saberá que é o Senhor falando quando chegar a última hora!” Comecei a agarrar meu assento, enquanto Wimber passava por uma longa lista de coisas singularmente relevantes para mim e minha situação.

Então, como um bônus, um membro da equipe ministerial compartilhou um sonho que teve comigo, que foi seguido por uma palavra profética de outra pessoa — e todos eles estavam respondendo à minha pergunta sobre a questão do ministério em tempo integral com um retumbante “Sim! Eu te chamei.”

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Quando compartilhei minha experiência com outros presbíteros, em nossa igreja, eles a confirmaram unanimemente. Sem que eu soubesse, eles já acreditavam há algum tempo que eu deveria deixar a universidade e me tornar o primeiro pastor sênior da nossa congregação. Estavam apenas esperando que Deus falasse comigo.

O Senhor também falou claramente com minha esposa, e decidimos dar um passo radical de fé. Deixei minha posição como professor na Ohio State University e entrei para o ministério em tempo integral. Nos 35 anos que se seguiram, pastoreei e liderei nossa “pequena” igreja que se tornou a Vineyard Columbus.

Deus é infinitamente criativo na maneira como fala. Ele fala através da natureza. Fala através de sonhos à noite e de visões durante o dia. Fala através de imagens e impressões. Fala através de palavras e atos proféticos. Fala através de nossas consciências, pregações, conselhos sábios, circunstâncias e experiências; fala através da história da igreja, através dos livros que lemos e de nossas mentes e emoções.

No entanto, ele fala de maneira mais clara e infalível através da Bíblia (a Palavra escrita de Deus) e através de Jesus (a Palavra encarnada de Deus).

O problema é que podemos, de forma lamentável, estar totalmente enganados sobre se Deus falou de fato e sobre o que ele disse. O apóstolo Paulo nos lembra que no presente século “em parte conhecemos e em parte profetizamos […] Por ora, vemos apenas um reflexo como em um espelho” (1Coríntios 13.9, 12).

Nosso conhecimento parcial, nossas profecias imperfeitas e nossa dificuldade em ouvir já levaram cristãos sinceros a acreditar erroneamente (por exemplo) que Deus havia lhes dito exatamente quando Jesus voltaria, que Deus traria avivamento nestes [determinados] lugar e tempo, ou que Deus queria que este candidato específico fosse eleito presidente.

Da mesma forma, devemos aceitar a realidade das limitações humanas, sempre que crentes reivindicarem [ter recebido] uma direção do Senhor . Enquanto procuramos discernir corretamente as palavras de Deus, devemos manter estas verdades em tensão: acolher a possibilidade de que Deus ainda fala hoje e, ao mesmo tempo, reconhecer que nem sempre ouvimos claramente [o que Deus fala]. Como Paulo diz, não devemos desprezar a profecia nem abraçar ingenuamente palavras proféticas sem primeiro colocá-las à prova para ver se são de Deus (1Tessalonicenses 5.19-22).

Somos instruídos a não acreditar em tudo o que ouvimos quando as pessoas reivindicam ter recebido uma palavra do Senhor, mas, em vez disso, devemos “examin[ar] os espíritos para ver se procedem de Deus”, como 1João 4.1 aconselha. Então, como podemos discernir se alguém está sendo guiado por Deus em suas palavras e ações? Aqui estão algumas precauções para chegar ao discernimento bíblico que me foram de grande utilidade ao longo dos anos:

1. A Palavra escrita de Deus é o padrão pelo qual julgamos qualquer palavra de profecia ou qualquer alegação feita pela liderança. Por exemplo, qualquer palavra que contradiga a revelação escrita de Deus sobre o que é verdadeiro, o que é moral ou o que é sua vontade expressa deve ser rejeitada.

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2. Jesus, o Verbo encarnado, também é o padrão pelo qual julgamos qualquer palavra de profecia ou qualquer pretensão da liderança. Por exemplo, palavras manipuladoras ou egoístas, que prejudiquem os outros ou estejam fora de sintonia com o Espírito de Jesus são suspeitas. Jesus é cheio de sabedoria, bondade, gentileza, verdade, graça e paciência, por isso, quaisquer palavras ou “orientações” que não reflitam o seu caráter devem ser rejeitadas.

3. A humildade deve caracterizar qualquer pessoa que ofereça uma palavra profética ou reivindique ter recebido uma orientação de Deus. Por exemplo, em vez de afirmar com confiança “Assim diz o Senhor” ou “Deus está me guiando”, é mais honesto dizer (por causa de nossa fragilidade humana) “Acho que Deus pode estar dizendo” ou “Tenho a sensação de que Deus pode estar direcionando”.

4. O discernimento comunitário é uma grande precaução contra erros no que diz respeito a ouvir e a aplicar a palavra de Deus. A mente de Cristo não é propriedade privada de uma elite (por exemplo, do pastor e de seu círculo mais íntimo). Paulo lembrou a toda a igreja em Corinto que “temos a mente de Cristo” (1Coríntios 2.16, ênfase acrescentada) — em outras palavras, não é apenas você que tem a mente de Cristo!

Uma pergunta que faço com frequência a pessoas que vão se casar é: “Existem pessoas que você conhece, em sua família, entre seus amigos ou na liderança cristã, que expressaram reservas ou preocupações sobre seu casamento?” Eu sempre quero saber se o casal está aberto a contribuições da comunidade ao seu redor e se está disposto a ouvir seus conselhos ou se eles estão fechados, agindo de forma independente e autônoma.

5. A transparência é outra marca de profecia genuína ou da liderança autêntica de Deus. Palavras ditas e decisões tomadas em segredo são sempre suspeitas. Os olhos e ouvidos dos outros bem como sua objetividade e sensibilidade são salvaguardas. É muito fácil nos convencer (enganar) a acreditar que neste caso em particular, porque as pessoas simplesmente não entenderiam ou porque levaria muito tempo para explicar, não podemos incluir os outros. O sigilo é uma ótima indicação de que algo está seriamente errado! A palavra de Deus sempre consegue suportar a luz do dia!

6. Verificação é fundamental em relação a qualquer profecia, liderança ou decisão importante. O pastor ou líder que diz que Deus está falando passou por alguma verificação significativa de seu discernimento e suas ações? Existe um conselho ou um grupo de líderes que de fato tenham autoridade ou eles simplesmente funcionam como alguém que sempre assina embaixo de tudo que o pastor quer e faz? O líder está aberto a ser desafiado? Alguma vez ele já reconheceu que estava errado — que o que pensava ser a voz de Deus, na verdade, não era Deus falando? O líder responde bem a perguntas legítimas, ou ele as evita alegando coisas como “Deus falou! Quem é você para se opor?”

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A verificação é algo particularmente crítico quando dinheiro, poder e/ou posição estão envolvidos. Se a pessoa que afirma que “Deus está falando” se beneficia pessoalmente dessa liderança, o conhecimento básico da natureza humana exige que lhe sejam feitas algumas perguntas francas, difíceis. Tenho muito mais confiança na autenticidade de uma palavra de Deus que envolva para a pessoa algum sacrifício substancial e alguma cruz a carregar do que uma palavra que resulta em progresso pessoal e ganho financeiro!

É verdade que frases como “O Senhor está falando” acabaram sendo associadas a ideias tolas e desejos egoístas. É mais fácil ser cínico e descartar completamente a noção de que Deus ainda fala hoje fora de sua Palavra escrita.

Mas, assim como a porção de lã que Gideão colocou na eira, bem como minha própria história quando entrei para o ministério, às vezes precisamos de uma palavra oportuna, de um incentivo ou de um lembrete do Senhor. Como Jesus disse: “Nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus” (Mateus 4.4, ênfase acrescentada).

Rich Nathan é o pastor fundador da Vineyard Columbus, uma congregação multiétnica em Columbus, Ohio e foi seu pastor sênior por 34 anos. Ele é autor de três livros: Empowered Evangelicals, Who Is My Enemy? e Both-And.

Traduzido por Mariana Albuquerque

Editado por Marisa Lopes

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