Nota do Editor: Em 2018, a missão fatal de John Allen Chau para a Ilha Sentinela, no Norte da Índia, lar da tribo mais isolada do mundo, estimulou novas conversas sobre cristãos que fazem o primeiro contato com povos indígenas. A maioria das tribos isoladas e remotas está na selva amazônica do Brasil, onde há décadas missionários como Braulia Ribeiro saíram para encontrá-los e viver entre eles — esperando ajudar a melhorar suas condições e, ao mesmo tempo, apoiando sua autonomia contra a crescente ameaça das intervenções do governo. Neste texto, ela compartilha sobre sua primeira missão em uma tribo remota.

Na tribo Paumarí, na região amazônica do Brasil, a maioria do povo odiava ser Paumarí.

Achavam que a melhor coisa do mundo era se tornar um “Jará”, termo para todos aqueles que tiveram a sorte de não terem nascido naquela pequena tribo indígena, não terem sido criados com sua língua “primitiva”.

O termo Jará designava qualquer pessoa que não fosse Paumarí, qualquer pessoa que fosse de fora. Para os Paumarís, a maioria dos Jarás que encontravam eram brasileiros que viviam ao longo do rio. A imagem do Jará era personificada especialmente pelos brasileiros que moravam na microvila que fica a um dia e meio de distância da lagoa dos Paumarís ou pelos comerciantes bêbados que lhes vendiam mercadorias superfaturadas.

A maioria dos ribeirinhos brasileiros, eles próprios agricultores de subsistência, eram tão isolados e empobrecidos quanto os Paumarís. Eles não tinham acesso a escola, a assistência médica ou a um padrão de vida para si ou para seus filhos. Mas todos os Jarás que os Paumarís conheciam tinham uma coisa em comum: consideravam-se superiores aos indígenas, a quem viam como pessoas de estranhos costumes que não sabiam sequer falar uma língua compreensível.

Paumarí, o nome que eles usavam para se autodenominar, originalmente indicava a beleza e a perfeição que o grupo via em si mesmo, e Jará costumava ser um termo pejorativo, sinônimo de “não-paumarí” que passou a significar essencialmente “não-humano”. Após muitas décadas de contato com outros brasileiros, os significados se inverteram. Ser chamado de Jará virou elogio. Os outrora belos Paumarís passaram a se ver como seres incapazes e sujos, da mesma forma que os forasteiros os viam.

Em 1983, fiz parte de uma equipe de jovens brasileiros que iria plantar uma estação missionária entre os Paumarís. Éramos quatro: José e Frances, um jovem casal nascido e criado na Amazônia, com experiência em canoa e pesca; Eustáquio, um negro de 20 e poucos anos com cabelo estilo afro; e eu, com apenas 19 anos. Tanto Eustáquio quanto eu éramos da mesma grande cidade do Sul, um contexto urbano, recém-chegados ao imenso mistério da Amazônia.

Foi nossa primeira expedição missionária. Fui escolhida para fazer parte desta viagem para ajudar a equipe a começar a aprender a língua Paumarí. Fiz um treinamento com o Summer Institute of Linguistics (SIL) no qual a língua dessa tribo foi analisada por duas tradutoras que passaram mais de 20 anos em outra aldeia Paumarí, rio acima.

Jovens cristãos da tribo Paumarí se reúnem para um batismo.

Jovens cristãos da tribo Paumarí se reúnem para um batismo.

Partindo da cidade de Manaus, no noroeste do Brasil, viajamos por cinco dias em um pequeno barco de linha de transporte para chegar ao último posto, Lábrea, uma pequena cidade situada no meio da selva. De Lábrea até um pequeno rio, onde estavam os Paumarís, não havia barcos de transporte disponíveis. Teríamos que alugar um barco particular para nos levar até lá. A viagem foi estimada em mais uma semana de barco, além de mais um dia remando em uma pequena canoa para chegar à Lagoa Maniçoã, onde ficava a aldeia flutuante dos Paumarís. Seríamos os primeiros missionários a chegar a esta aldeia em particular.

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A única sobra de dinheiro que nossa pequena equipe tinha eram algumas centenas de dólares que separamos para comprar suprimentos e comida para ficar na selva por três meses. Não era muito. Poderíamos comprar um pouco de querosene para lamparinas, pilhas para lanternas e um pouco de arroz e feijão — a dieta básica no Brasil — para ter certeza de que não passaríamos fome.

“O que fazemos, Senhor? Devemos ficar aqui esperando?” Como bons pentecostais recém-convertidos, pedimos a orientação a Deus. Senti que havia recebido um versículo das Escrituras como resposta de Deus. Quando olhei o versículo, ele dizia: “Ele foi e vendeu tudo o que tinha” (Mateus 13.46). O que isso poderia significar? Todos nós nos perguntamos. Senti, no entanto, um frio na espinha. Deus está dizendo que temos que usar todo o nosso dinheiro para pagar a ida de barco?

E foi exatamente assim que as coisas aconteceram.

Esperamos alguns dias, antes de contratar o proprietário do menor barco que pudemos encontrar, um barco de madeira sem paredes, sem banheiro, sem cozinha — que tinha apenas um motor a diesel de quatro cavalos de potência. O preço que ele cobrou para nos levar até aquela aldeia distante e de volta a Lábrea foi o mesmo valor que tínhamos da sobra.

Como “bons” missionários, entendemos que não tínhamos desculpa para rejeitar a oferta. Tínhamos de obedecer à ordem exata que havíamos recebido. Alugamos o pequeno barco e partimos, com comida apenas para a curta viagem, sem querosene, levando umas poucas pilhas e anzóis para pescar. Foi uma viagem de cinco dias no barco lento até a foz do rio Cunhuá, e de lá encontramos um homem com uma grande canoa que estava disponível para nos levar até a Lagoa Maniçoã, a fim de encontrar a aldeia flutuante.

Chegar à lagoa dos Paumarís foi como um sonho surreal. Para chegar à lagoa a partir do rio tivemos de subir por um pequeno afluente, para chegar a uma floresta de várzea inundada por águas negras como Coca-Cola. Depois de várias horas remando pela selva inundada, finalmente entramos na vasta expansão de água da lagoa. Foi como encontrar um mundo mágico.

Os Paumarís vivem metade do ano escondidos nas margens da lagoa, ao pé da “terra seca”, a parte não alagável da floresta, e a outra metade do ano em choupanas construídas no topo de gigantescas árvores flutuantes. Quando chegamos, o sol da tarde refletia nas folhas secas das palmeiras das choupanas dos paumaris, fazendo com que tudo parecesse prateado em contraste com as águas negras e o verde profundo das árvores. Sentimos como se tivéssemos comprado um tesouro por algumas centenas de dólares. Se tudo corresse bem, iríamos morar neste paraíso.

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Descemos da canoa em frente à primeira choupana, em uma espécie de cais de madeira sobre as águas. As choupanas que ficavam na “terra seca” dos Paumarís são estruturas altas e esqueléticas feitas de troncos de palmeiras, elevando-se cerca de 4 metros acima do solo. Elas não têm paredes, apenas um piso de folha de palmeira e um teto de palha fina.

“Ivaniti?” — É você? — gritei da terra. Uma idosa me respondeu do alto: “Ha’ã hovani!” — Sim, sou eu! — nem mesmo parecendo estranhar me ver falando a língua dela, experimentando as frases básicas que tinha aprendido com os linguistas do SIL.

Subimos todos até a choupana e sentamos cerimoniosamente no piso brilhante de paxiúba, uma palmeira usada na maioria de suas construções. A idosa continuou a conversa, como se me conhecesse: “Vocês percorreram um longo caminho. Estão cansados? Já comeram? Tem peixe frito” etc. “Sim, percorremos. Não, não estamos. Estamos bem. Felizes por ter chegado após a longa viagem.” Nós nos sentíamos como se estivéssemos em casa.

Depois de uma boa hora de conversa sobre a viagem e nosso bem-estar geral, ela perguntou com quem estávamos relacionados ou o que planejávamos fazer ali, perguntas que são indelicadas de fazer no momento da chegada.

“Somos missionários”, eu disse em meu Paumarí truncado. “Queremos ajudá-los a conhecer Jesus, o Filho de Deus, e se vocês quiserem, também podemos ajudar a montar uma escola para ensinar todos a lerem.” A senhora olhou para mim com uma expressão de perplexidade e começou a gritar pelo neto, Danilo. “Venha cá, Danilo. Os missionários chegaram. Leve-os para a casa deles.”

“Nossa casa?”, eu perguntei. Ela apontou para uma choupana alta e desabitada nas proximidades. “Danilo e eu construímos esta cabana há dois verões, preparando-nos para sua chegada. Ouvimos no rádio sobre o Deus Criador e como seu Filho, Jesus, quer nos ajudar. Eu disse: ‘Se isso for verdade, ele nos enviará seu povo.’ Então construímos a cabana para vocês.”

Fomos instalados na “casa” e, a partir daquele dia, fomos alimentados com fartura de peixes, farinha de mandioca e frutas silvestres. Durante os seis meses que passamos com os Paumarís fomos bem supridos, e não precisamos de nem um centavo do dinheiro que aplicamos no aluguel do barco para chegar lá. Não tínhamos nada para oferecer a eles, exceto a nós mesmos, e isso era tudo o que eles precisavam naquele momento de sua história.

Os Paumarí vivem no rio Purus, afluente do Amazonas.

Os Paumarí vivem no rio Purus, afluente do Amazonas.

Com a ajuda da aldeia, construímos uma choupana alta como todas as outras, ao pé da “terra seca”, que funcionava como escola para as crianças Paumarí durante o dia e para os adultos à noite, ensinando-os a ler e a escrever em sua própria língua. Tínhamos trazido remédios, material de primeiros socorros e o livro Onde Não Há Médico, então, também abrimos uma espécie de clínica humilde para ajudar a atender às necessidades básicas de saúde e atender às famílias que moravam ao longo do rio, que precisavam de remédios para malária.

Com o passar do tempo, os adultos aprenderam melhor a matemática e puderam evitar ser enganados pelos comerciantes. Acabamos resolvendo os problemas sistêmicos que mantinham os Paumarís e os ribeirinhos abaixo da linha da pobreza? Eu acho que não. Eles ainda são pobres. Depois de alguns anos, conseguimos comprar comida, remédios e um barco, mas a missão em si era ineficiente em atender às suas necessidades.

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Nós, no entanto, transformamos a maneira como os Paumarís olhavam para os forasteiros. Eles nos viam como os missionários para os quais construíram uma cabana e a quem sustentavam com porções diárias de peixe. Nós nos tornamos seus próprios Jarás, pessoas da cidade, sagazes, que de alguma forma dependiam dos Paumarís “inferiores” para sobreviver.

O fato de terem que apoiar nosso grupo deu a toda a vila um senso de dignidade e valor. Eles não eram os pobres que recebiam ajuda; seu relacionamento conosco era de igual para igual, e a dependência era mútua.

Eles começaram a ver novamente a questão de “ser Paumarí” como um motivo de orgulho. A sua língua ganhou prestígio, porque os estrangeiros a estudaram, ensinavam-na nas escolas, preservaram-na em livros. Até hoje, os Maniçoã Paumarís da aldeia que visitamos falam sua língua materna. E, pela graça de Deus, eles são uma comunidade cristã produtiva que escapou do auto-ódio tóxico que sufoca muitas outras aldeias indígenas ao longo do rio Purus. Afinal, eles tinham seu próprio grupo de missionários de estimação, que eles abrigavam e alimentavam, e nenhuma outra aldeia em todo o rio tinha o mesmo privilégio.

Braulia Ribeiro é uma acadêmica brasileira e mãe de três filhos, com mestrado em etnolinguística pela Universidade Federal de Rondônia e mestrado em divindade pela Yale Divinity School.

Traduzido por Mariana Albuquerque

Editado por Marisa Lopes

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