O slogan da campanha de Bolsonaro é: “Deus acima de tudo, Brasil acima de todos”. Você vê esse slogan como algo em que ele realmente acredita?

Guilherme de Carvalho: No meu julgamento, e com base em testemunhos de pessoas com acesso ao presidente, creio que ele realmente acredita nesse slogan. Ele não é um farsante — ao menos, não o é conscientemente. A questão é outra: ele não tem uma compreensão de Deus e do que tal slogan implicaria de fato para a nação. A razão de ter escolhido esse slogan é evidente: para se comunicar com uma faixa das populações católica e evangélica praticantes, cujos valores são ignorados por nossas elites culturais.

Lamentavelmente, Bolsonaro tem uma compreensão distorcida de Deus e do evangelho, e isso faz com que ele tome o nome de Deus em vão, associando-o ao seu projeto pessoal. Mas isso não é uma novidade política; vivemos num país em que há um cristianismo cultural muito disseminado e bastante distorcido. O brasileiro comum fala de Deus o tempo inteiro, apesar de não saber bem do que está falando. A esquerda tenta também, às vezes, usar o nome de Deus, mas convence pouco, pois todos notam que é uma farsa. No caso do Bolsonaro é mais difícil mostrar o engano, justamente por ele acreditar no que diz.

Iza Vicente: Apesar de ser impossível afirmar quais são as crenças mais profundas de uma pessoa, inclusive as do Bolsonaro, entendo que o slogan adotado pelo bolsonarismo não nasce de uma genuína convicção na soberania e na magnitude de Deus, mas sim de uma isca de marketing para capturar o sentimento de fé presente na maioria dos brasileiros. É também uma sinalização autoritária e teocrática, pois, ao enfatizar o “Deus [que está] acima de tudo” como imperativo de força, ele se esquece do Deus que também esteve entre nós, sendo servo de todos.

Ziel Machado: Quem transforma Deus em cabo eleitoral está correndo o sério risco de tomar o nome de Deus em vão.

Durante a pandemia, Bolsonaro fez deboche de pessoas que estavam morrendo de COVID-19 e lutavam para respirar. Para mim, essas ações não demonstraram um conhecimento ou uma relação com o Deus das Escrituras. Então, é possível que ele acredite no que diz, mas comparando o que ele diz com seus atos de misericórdia, que foram nulos, equivale a tomar o nome de Deus em vão e passa uma imagem não bíblica de Deus. E um presidente cujas políticas têm mostrado repetidamente falta de empatia pela dor do povo não pode estar se referindo ao mesmo Deus amoroso e compassivo das Escrituras.

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Jacira Monteiro: Esse slogan é propaganda política, e não uma crença de Bolsonaro. Os evangélicos são alvos de conquista por parte dos políticos, pois, no Brasil, têm um peso de voto considerável. Valendo-se da prerrogativa de ser cristão (embora seu cristianismo certamente não seja o mesmo da Bíblia, não seja o cristianismo de Jesus Cristo), Bolsonaro conquistou cristãos evangélicos, manipulando essa massa com o seu slogan “cristão”.

Contudo, o próprio Deus disse que devemos “dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mateus 22.21). A separação entre Estado e igreja é um princípio bíblico. O cristão que busca poderio político e manipula cristãos com esse propósito não entendeu os ensinos de Jesus e está em pecado.

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Sobre a segunda parte do slogan, é óbvio que nós, como brasileiros (as), devemos amar o Brasil e lutar pelo bem comum. Mas patriotismo cego não é algo cristão, pois a Bíblia diz que nossa pátria está nos céus (1Pedro 2.11 e Filipenses 3.20), não aqui na terra. O Brasil não deve estar acima de todos, mas deve, sim, servir a todos. Como cristãos somos chamados a servir, não a dominar, e um presidente “cristão” deveria saber disso.

Ricardo Barbosa: Geralmente, o slogan de uma campanha política ou de um governo funciona como uma forma de publicidade, de afirmação de valores e expectativas etc. O slogan do Bolsonaro é isso. Imagino que ele o tenha escolhido para afirmar valores como fé, religião, pátria ou patriotismo. Mas não tenho como responder à pergunta se ele acredita ou não neste slogan. É uma pergunta que só ele pode responder.

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