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Conheça a incrível história de Loren Cunningham, fundador da JOCUM

Ele mobilizou milhares de missões de curto prazo e viu “ondas” de jovens levando o evangelho a todas as nações.
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Conheça a incrível história de Loren Cunningham, fundador da JOCUM
Image: Courtesy of Youth With a Mission / edits by Rick Szuecs

Loren Cunningham, o visionário carismático que fundou a organização Jovens Com uma Missão (JOCUM) e mobilizou milhões de jovens para viagens missionárias de curto prazo, morreu na manhã de sexta-feira, no dia 6 de outubro. Ele tinha 88 anos.

Aos 20 anos, Cunningham estava orando e viu a imagem de um mapa, mas o mapa estava se movendo. Ondas quebravam nas costas de todos os continentes, recuavam e depois quebravam novamente. A imagem lhe pareceu “um filme mental”, diria ele mais tarde, e, quando olhou mais de perto, viu que as ondas eram jovens, “da minha idade e até mais novos”, cumprindo a Grande Comissão: “Vão pelo mundo todo e preguem o evangelho a todas as pessoas” (Marcos 16.15).

A visão se tornou a ideia central da JOCUM. A organização chamou isso de “uma aliança fundamental iniciada por Deus e definidora do destino, para dar origem a um novo movimento missionário”.

De acordo com Cunningham, ele demorou alguns anos para entender o que tinha visto. Mas isso, no fim das contas, deu-lhe poder para “desburocratizar” as missões, enviando mais pessoas, mais rapidamente, para mais lugares onde pudessem “proclamar a verdade de Deus e demonstrar o seu amor”.

A JOCUM atualmente opera em mais de 2.000 locais, em quase 200 nações. A organização parou de contabilizar quantos jovens envia em missões de curta duração no ano de 2010, quando esse número totalizava perto de 4,5 milhões.

“O que eu gosto no espírito da JOCUM é essa disposição de enfrentar o inferno com uma pistola d’água”, disse Steve Douglass à CT, alguns anos antes de morrer, quando era presidente da Cruzada Internacional Estudantil para Cristo (a atual Cru).

Kris Vallotton, líder sênior da proeminente e carismática Bethel Church, em Redding, Califórnia, disse na sexta-feira que a JOCUM é “provavelmente a maior organização missionária da história”. Ele chamou Cunningham de “um dos maiores heróis da fé da história moderna”.

O evangelista Franklin Graham fez uma avaliação semelhante.

“Que vida incrível este homem viveu”, escreveu nas redes sociais o presidente da organização Bolsa do Samaritano. “Loren permitiu que Deus o usasse e, por décadas, ele foi uma grande força para o Evangelho.”

Cunningham nasceu em 30 de junho de 1935, em Taft, Califórnia, mas, em suas primeiras lembranças, ele estava em uma barraca, em algum lugar do Arizona. Ele, seus pais e a irmã mais velha estavam fazendo tijolos de adobe [tijolo feito com terra crua, água, palha e fibras naturais] à mão, para construir uma pequena igreja pentecostal.

Ouvindo o que Deus tem a dizer

Tom e Jewell Cunningham foram ambos ministros ordenados da Assembleia de Deus e evangelistas pentecostais de segunda geração. Jewell aprendeu a pregar quando criança, viajando de tenda em tenda por Oklahoma, Texas e Arkansas. Quando se casaram, eles moravam no carro, enquanto pregavam pelas ruas de Tyler, no Texas.

O casal ensinou os três filhos a sacrificarem o conforto pessoal em prol do evangelho e a ouvirem a Deus de maneira pessoal. Em seus últimos anos, Loren Cunningham lembrou - se de ter aprendido que a direção do Espírito poderia ser uma questão de vida ou morte. Certa vez, seu pai estava pregando nas ruas de uma cidade do sul da Califórnia, quando sua mãe disse de repente: “Temos que ir agora. Deus disse que temos que ir agora!”

Enquanto a família se afastava do local em seu carro, um terremoto sacudiu a cidade e uma pilha de tijolos caiu bem na calçada onde eles tinham estado.

“Se Deus tiver algo importante a lhe dizer”, dizia Jewell Cunningham, “ele falará diretamente com você”.

O jovem Cunningham ouviu Deus pela primeira vez quando tinha seis anos, e mais tarde lembrou que isso era uma experiência regular; aos nove anos, ouvir Deus era uma experiência muitas vezes diária. Quando estava com 13 anos, ele recebeu um chamado para o ministério enquanto orava em uma tenda no Arkansas, com vários primos. Eles oraram por várias horas, numa segunda-feira à noite, e Cunningham sentiu como se tivesse sido tocado por Deus.

“Deus simplesmente irrompeu e deixou o chamado muito claro para mim”, disse ele, mais tarde. “Eu não tinha dúvidas de que fora chamado para pregar.”

Para comemorar, sua mãe o levou à cidade e comprou-lhe sapatos novos, citando Romanos 10.15: “Quão formosos são os pés dos que pregam o evangelho” (KJV). Cunningham pregou seu primeiro sermão na igreja de seu tio, na quinta-feira daquela semana.

Ele teve sua primeira experiência com a obra missionária aos 18 anos, viajando para o México, durante a Páscoa, com um grupo de jovens, para testemunhar de porta em porta e pregar nas ruas daquele país predominantemente católico. A viagem de Cunningham terminou num hospital, com disenteria, mas ele a considerou um sucesso, porque 20 pessoas tinham ficado de joelhos, na rua, para professar que Jesus Cristo é o Senhor.

No ano seguinte, Cunningham frequentou a Central Bible College (Faculdade Bíblica Central), uma escola da Assembleia de Deus em Springfield, no Missouri. Ele e três outros estudantes formaram um quarteto gospel chamado The Liberators [Os libertadores] e viajavam pelo país cantando e pregando. Durante uma viagem para o Caribe, em 1956, ele teve a visão de ondas de jovens, poucos dias antes de completar 21 anos.

“Deus fala na língua da gente”, ele diria, brincando, ao televangelista Pat Robertson, em 2022, “e eu vi essas ondas quando era um adolescente surfista na Califórnia”.

A princípio, Cunningham pensou que talvez a visão significasse que ele deveria dedicar-se ao ensino ou à formação de professores. Ele se formou na Central, em 1957, graduando-se em educação bíblica e cristã, e foi para a Universidade do Sul da Califórnia para fazer mestrado em educação.

O fracasso das escolas bíblicas

Entretanto, enquanto Cunningham trabalhava em sua dissertação sobre escolas bíblicas, ele ficou desiludido. Ele analisou 72 instituições ao redor do mundo e descobriu que poucas estavam tendo impacto significativo na evangelização mundial, se é que alguma delas estava tendo. A maioria dos formandos sequer se dedicava ao ministério — e muito menos se tornava o tipo de missionário capaz levar o evangelho até os confins da terra.

Ao mesmo tempo, Cunningham começou a atuar no ministério para jovens com as Assembleias de Deus, no sul da Califórnia, onde seu pai trabalhava agora como superintendente assistente com foco em plantação de igrejas e missões. Mas Cunningham também se desiludiu com isso.

“Os jovens eram todos muito brilhantes e entusiasmados”, disse ele à revista Charisma, em 1985. “Mas tive que admitir que a maioria das atividades que planejava para eles eram vazias. Eles não atingiam o coração dos jovens porque não os desafiavam. É isso que todos desejamos, especialmente na adolescência, com 20 e poucos anos. Um grande desafio.”

Cunningham descobriu que era bom em entusiasmar os jovens e convencê-los a fazerem coisas ousadas pelo evangelho, mas não havia nada para eles fazerem. As Assembleias de Deus disseram que, se eles quisessem ser missionários, precisavam frequentar uma escola e receber cerca de sete anos de educação e formação.

“A essa altura”, queixava-se Cunningham, “a maioria já teria se esquecido de seu zelo ardente”.

Ele começou a fazer experiências com missões de curto prazo, levando cerca de 100 jovens pentecostais para o Havaí, durante o recesso de primavera, em 1960. Houve desafios — muitos dos jovens encararam a viagem como um simples recesso escolar —, mas Cunningham convenceu-se de que este era o novo modelo para o evangelismo global. Os jovens ficavam entusiasmados e faziam viagens curtas, pagavam as próprias despesas ou angariavam os próprios recursos, e falavam de Jesus para todas as pessoas do mundo.

Naquele verão, Cunningham fez uma viagem para explorar locais onde jovens missionários pudessem ir. Ele foi ao Japão, Hong Kong, Tailândia, Camboja, Índia, Paquistão, Egito, Líbano, Jordânia, Israel, Turquia, Grécia, Escandinávia e Grã-Bretanha. E começou a fazer grandes planos para 1961.

A liderança das Assembleias de Deus, porém, achou que os seus planos eram grandiosos demais. A denominação ofereceu-lhe um salário para lançar um programa de missões para jovens, mas queriam começar de forma mais modesta.

Na lembrança que Cunningham tinha mais tarde dessa conversa, eles lhe disseram: “Você pode continuar com a sua visão, Loren, mas levará um número de pessoas mais administrável — digamos, 10 ou 20 jovens por ano”.

Ele protestou que a sua visão era “muito, muito maior do que 20 pessoas por ano e muito maior do que de qualquer denominação”. Lembrando-se do que seus pais lhe ensinaram sobre ouvir Deus pessoalmente, Cunningham decidiu deixar as Assembleias de Deus e agir por conta própria. A JOCUM foi oficialmente fundada no estado da Califórnia, em fevereiro de 1961.

Nos primeiros anos, porém, a organização não conseguiu 20 jovens por ano para irem em missões de curto prazo — nem mesmo 10.

Darlene Cunningham implementa a visão

Quando Cunningham conheceu uma jovem chamada Darlene Scratch, em 1962, a organização missionária lutava com dificuldades e enviava cerca de cinco jovens por ano. Mas Darlene — que sonhava com o ministério transcultural, depois que seu tio foi preso por trabalho missionário na China comunista — enxergou algumas maneiras de implementar a visão da JOCUM na prática. Cunningham casou-se com ela no ano seguinte e declarou-a como cofundadora.

“Sem Darlene, nunca teria havido nada duradouro”, disse ele.

Em 1964, ela organizou um “Verão de Serviço” nas Bahamas e na República Dominicana. Perto de 150 jovens cristãos americanos se inscreveram. Quando regressaram aos EUA, a tempo de voltarem para a escola no outono, relataram milhares de conversões e algumas curas milagrosas.

A JOCUM, então, organizou viagens para México, Porto Rico e Ilhas Virgens. Mais tarde, em 1966, já tinham 90 pessoas em 17 equipes no Caribe e outras 25 em cinco grandes caminhões postais que atravessavam o México, a Guatemala, a Nicarágua e Honduras. Todos os missionários eram jovens que levantaram recursos próprios e não deixaram que exigência de treinamento diminuísse seu zelo.

É claro que houve numerosos desafios e muitos erros básicos que foram cometidos naqueles primeiros anos. Mais de um veículo ficou encalhado na lama, em estradas intransitáveis. Um dos primeiros panfletos tinha o nome Cristo escrito de forma incorreta, convidando os jovens a passar o verão representando Cisto ”. Os Jocumeiros aprendiam a confiar em Deus, a orar e a “se virar”.

E os relatos sobre desafios, na verdade, atraíam mais jovens.

“Vocês vão dormir no chão, comer alimentos diferentes, sofrer com climas quentes e sufocantes e viver cercados de mosquitos”, dizia Cunningham. “Vocês vão acabar emocionalmente esgotados e espiritualmente atacados. Mas isso faz parte do nosso crescimento no Senhor.”

Um laboratório para evangelismo

Em 1968, a JOCUM tinha 30 funcionários de tempo integral e 1.200 missionários de curto prazo. A organização decidiu que um pouco de formação seria útil e abriu uma escola, em um hotel na Suíça. Entre os primeiros professores estavam os pais de Cunningham, o apologista Francis Schaeffer, o engenheiro mecânico e teólogo leigo Harry Conn e o evangelista escocês Duncan Campbell.

“Não é uma escola bíblica”, explicava Cunningham, “mas sim um laboratório para evangelismo”.

A JOCUM lançou mais escolas, vindo finalmente a operar a Universidade das Nações em mais de 600 localidades. Um líder disse que eles eram uma “máquina de ondas” que produzia as ondas de jovens que Cunningham tinha vislumbrado em sua visão. As escolas oferecem treinamento em evangelismo, mas também cursos em esportes e preparação física, ciência e tecnologia, educação, comunicação e arte.

Cunningham disse que teve uma revelação sobre sete salas de aula, e cada uma correspondia às sete esferas da sociedade que os cristãos precisavam impactar para provocar mudanças.

Ele foi contar a seu amigo Bill Bright, fundador da Cru, sobre essa revelação, em 1975. Mas, antes que pudesse dizer qualquer coisa, Bright anunciou que tinha tido uma revelação e produziu uma lista basicamente idêntica de sete esferas. Algumas semanas depois, Cunningham ouviu Schaeffer apresentar um argumento muito semelhante sobre assumir para Cristo o domínio sobre estas sete áreas diferentes: família, religião, educação, mídia, arte, economia e governo.

A ideia foi posteriormente popularizada pelo pastor da Bethel, Bill Johnson, e outros como o “Mandato das Sete Montanhas”. Tornou-se a base teológica para que muitos carismáticos americanos abraçassem Donald Trump.

Cunningham, porém, não se envolvia em política. Ele via as sete esferas como uma estrutura para o evangelismo e como “estratégias da Grande Comissão”.

Quando Cunningham completou 50 anos, em 1985, a JOCUM estava enviando mais de 15.000 jovens em viagens missionárias de curto prazo todos os anos. O ministério operava em 1.100 locais e 170 países. E, no entanto, o líder visionário estava convencido, como escreveu em seu primeiro livro, de que aqueles jovens eram “apenas a fração da fração do que era necessário” e que “os trabalhadores ainda eram poucos, muito poucos”.

Ele continuou concentrado em crescer, expandir e inovar.

Acusações de abuso espiritual

A JOCUM tem enfrentado críticas pela forma como tratou as “ondas” de jovens. Na década de 1980, o veterano Gregory Robertson disse que o ministério era abusivo e manipulador. Diziam às pessoas que discordassem da liderança que elas estavam se rebelando contra Deus ou até mesmo possuídas por demônios, alegava ele.

Mais recentemente, ex-Jocumeiros postaram vídeos nas redes sociais alegando que foram abusados espiritualmente.

“Essas coisas acontecem em todas as bases”, disse uma mulher. “A capacidade deles de ‘ouvir a voz de Deus’ sempre supera a conexão da própria pessoa com o Espírito Santo.”

A JOCUM não respondeu formalmente às acusações, mas um líder no Reino Unido disse que alguns jovens líderes provavelmente agiram de forma inadequada.

“Isso acontecerá quando estivermos comprometidos com o apelo à mobilização de jovens em todo o mundo”, disse o líder, na ocasião. “Eles vão cometer alguns dos erros que cometi quando tinha 18, 19 e 20 anos.”

Ele também observou que o abuso acontece em muitos contextos, e argumentou que o histórico da JOCUM [nessa área] era melhor que o da maioria das organizações missionárias.

O modelo descentralizado do ministério deixa a supervisão nas mãos de pessoas locais. As reclamações não chegavam até Cunningham, pois ele não gerenciava o treinamento nem as operações que aconteciam localmente; ele se concentrava no panorama geral. Seu trabalho, a seu ver, era abrir comportas de potenciais missionários.

Em 1999, Cunningham viajou para a Líbia e se tornou o primeiro missionário a ir a todas as nações do mundo, bem como a 150 ilhas e territórios.

Quando a COVID-19 e depois o câncer restringiram as suas viagens, nos últimos anos da sua vida, Cunningham começou a usar o Zoom para falar com pessoas de todos os continentes. Ele falava com frequência sobre a necessidade de mais traduções da Bíblia em mais idiomas e exortava as pessoas a “viverem ‘plenamente’ para Jesus”.

“Tem sido uma ótima vida”, dizia ele. “Eu diria a qualquer um... tenha um propósito. Tenha um chamado. Certifique-se de que você está fazendo isso para Deus e para os propósitos dele. Ele é amor e você deve demonstrar o amor de Deus.”

Cunningham deixa a esposa, Darlene, e dois filhos, Karen e David. Um culto em memória de Cunningham será celebrado no Havaí, no dia 4 de novembro.

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