Nunca vi tantas manchetes falando de morte.

Nos últimos dois anos de pandemia, as seções dos obituários dos jornais engordaram com homenagens, e meus feeds on-line — em cuja pesquisa aparecem digitados termos como pastor e ministro — foram tomados por notícias locais sobre igrejas que perderam seus líderes durante a pandemia.

O número de mortos que alcançamos agora é pior do que o pior dos cenários que poderíamos imaginar, quando fomos atingidos pela primeira onda da COVID-19. Enquanto os Estados Unidos “comemoravam” a marca de 800 mil mortos, no final de 2021, o articulista do The Atlantic, Clint Smith, chamou-o de um número “tão absurdamente enorme que corremos o risco de ficar insensíveis às suas implicações”.

Há uma sensação de resignação na maneira como as pessoas, até mesmo as cristãs, falam dos mortos da COVID-19. Dependendo de seu posicionamento sobre a vacinação, elas podem sugerir, por um lado, que os não vacinados se colocam em risco ou que, por outro lado, simplesmente deve ter chegado a hora de morrerem.

Na Quarta-feira de Cinzas, os cristãos tradicionalmente repetem um dito destinado a lembrar uns aos outros de nossa mortalidade, do fato de que todos morreremos e “ao pó retornaremos”. Quase não precisamos mais desse lembrete, em meio a uma pandemia que já tirou mais de 5,7 milhões de vidas em todo o mundo.

Seria difícil, diante desse nível de perda, não mudar nossa concepção da morte, ou movê-la ainda mais na direção que já estava tomando.

Temos visto um fatalismo subserviente em relação aos gravemente enfermos. Os vulneráveis do ponto de vista médico muitas vezes foram reduzidos a seus “fatores de risco” e a suas “comorbidades” relacionadas à COVID-19, como se essas condições justificassem outra vida perdida.

Governos de todo o mundo estão adotando políticas para sancionar a eutanásia. Na Austrália e no Reino Unido, os políticos estão fazendo lobby para legalizar a “morte assistida” ; a Suíça estreou uma “cápsula suicida” futurista, projetada para propiciar últimos momentos tranquilos. Nos EUA, 10 estados permitem o suicídio assistido por médico e, este ano, outras 14 câmaras legislativas estaduais considerarão projetos de lei para legalizar a prática.

A inevitabilidade da morte não faz dela algo a ser convidado ou mesmo aceito com naturalidade — seja ela pandêmica ou não. A morte é nossa inimiga. Como escreve R. C. Sproul, ela é o intruso no jardim. Ela nos rouba o que Deus fez e chamou de bom. Deveria nos deixar furiosos, indignados. Especialmente quando dezenas de pessoas ao nosso redor estão morrendo desnecessariamente.

Os evangélicos costumam adotar o rótulo de “pró-vida”. Mas ser pró-vida também significa o oposto: que somos contra a morte.

Devemos trabalhar para salvar vidas, para evitar mortes por negligência, em todas as áreas que pudermos: na saúde e na segurança públicas, em úteros e em cápsulas de suicídio. Não podemos vencer a morte deste lado da eternidade — graças a Deus, alguém realizou por nós essa façanha —, mas temos a responsabilidade de valorizar a vida e de preservá-la enquanto pudermos.

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“A recusa em levar a sério a COVID-19 não é um caso de pessoas que valorizam mais a eternidade do que a biologia. Na verdade, é o inverso: é a recusa de colocar a vida acima das ideologias”, disse-me Russell Moore, o teólogo público da CT. Quando sabemos o quão mortal esse vírus é e ainda assim colocamos outras pessoas em risco com nossas ações e políticas, estamos brincando de Deus, “como se pudéssemos decidir quais vidas valem a pena ser vividas”, disse ele. Mas, como seguidores de Cristo, devemos lembrar que nem mesmo nossas próprias vidas são nossas.

Minha preocupação é que, como pessoas cujo destino eterno é uma boa notícia, esqueçamos que a morte continua a ser uma má notícia. Deus nos deu a vida como uma dádiva. A morte não é nossa chance de subir de nível para a presença de Deus; é o fim de algo em que Deus se deleita e chama de bom por si mesmo. A morte é algo errado.

“Uma compreensão cristã da morte”, segundo escreve o teólogo Tim Perry em Funerals: For the Care of Souls, “... apresenta a morte como a grande ruptura de todos os relacionamentos amorosos, como a punição pelo pecado e como o inimigo final”.

Em seu livro cheio de liturgias sobre a morte, Douglas Kaine McKelvey escreveu uma intercessão de seis páginas contra o reino da morte.

“Chamar a morte de natural é uma mentira, girá-la como se não passasse de apenas mais um raio na ‘roda da vida’ é ignorar o gemer de suas criaturas, ó Cristo”, diz a oração. “A morte é uma catástrofe, um inimigo obsceno, uma flecha envenenada que perfura o olho da criação, distorce a história e as nações, traz luto ao coração dos amantes, deforma as constelações da comunidade, da família, do florescimento.”

Portanto, quando pessoas ao nosso redor morrem, especialmente em circunstâncias cujas hipóteses de evitabilidade nos assombram, é certo chorarmos de tristeza e brandirmos os punhos indignados.

Continuemos tristes por muito mais tempo, mesmo depois que aqueles ao nosso redor já considerarem a morte aceitável. Recusemo-nos a minimizar a dor da perda de um parente, um amigo, um vizinho, um colega de trabalho. Podemos chorar pelo resto desta vida, sabendo que na próxima, nosso Deus, que venceu a morte, enxugará de nossos olhos toda lágrima.

Kate Shellnutt é editora sênior de notícias da CT.

Traduzido por Mariana Albuquerque.

Editado por Marisa Lopes.

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