Quase duas décadas atrás, um pequeno grupo de sociólogos embarcou em um projeto de pesquisa longitudinal chamado Estudo Nacional sobre Juventude e Religião (NSYR, em inglês). Promovido pela University of North Carolina em Chapel Hill e pela University of Notre Dame, os pesquisadores do NSYR acompanharam a vida de fé de jovens dos Estados Unidos por um período de dez anos, desde o início da adolescência até a entrada na idade adulta. Suas descobertas foram relatadas em três livros:Soul Searching, Souls in Transition e A Faith of their Own.

A grande conclusão desse projeto gigantesco está no livroBack Pocket God: Religion and Spirituality in the Lives of Emerging Adults, escrito em coautoria por Melinda Lundquist Denton, professora associada de Sociologia da Universidade do Texas em San Antonio, e Richard Flory, diretor sênior de pesquisa e avaliação no Centro de Religião e Cultura Cívica da University of Southern California.

A CT falou com Lundquist Denton sobre a queda dramática na frequência à igreja entre os jovens adultos e o que isso significa para o discipulado que está sendo feito nas casas, nas salas de aula e nos templos.

(Clique aqui para uma entrevista semelhante, feita com Christian Smith, coautor de Handing Down the Faith.)

Antes de entrarmos em detalhes, gostaria de saber sua opinião pessoal. Ao relembrar esses anos de pesquisa, qual é o seu sentimento preponderante em relação ao futuro da igreja?

Não estudamos congregações, não olhamos para igrejas. Olhamos para os indivíduos e sua conexão — ou não — com as igrejas. Dito isso, podemos dizer que aprendemos algumas lições sobre o assunto conversando com pessoas de todo esse grupo de jovens. De modo geral, penso que, se esse grupo de jovens for representativo, então, com o passar do tempo, o compromisso vitalício com as organizações religiosas será algo cada vez mais escasso. Realmente creio que a igreja terá de lutar para manter as gerações futuras. Não penso que isso seja novidade para ninguém.

Não, não é. Mas você viu isso de perto.

Não creio que seja nem mesmo uma questão de “Oh, basta ser relevante para compreender esta geração”. Creio que os relacionamentos dentro das instituições estão mudando como um todo, e os jovens adultos não veem a igreja acompanhar o rumo que a vida deles está tomando. Portanto, há muitas questões que se cruzam, sobre as quais poderíamos falar.

Vamos falar sobre o que você chama de categoria “comprometida” de jovens adultos. Como, exatamente, esse grupo se destacou?

No âmbito religioso, fazemos uma distinção entre pessoas que são constantemente comprometidas e cuja religião faz parte de sua vida e pessoas que são apenas marginalmente ligadas à religião. E, entre as constantemente comprometidas, existem dois subgrupos. Há um grupo bem pequeno, para quem a religião é o que chamamos de motor de sua vida. É a força motriz de sua vida; tudo o que eles fazem é baseado em sua fé, e ela é parte do que motiva suas escolhas de vida, carreira, decisões na formação educacional. É um grupo bem pequeno de pessoas. Encontramos alguns deles, mas não muitos.

Melinda Denton
Image: Illustration by Mallory Rentsch / Source Images: Portrait Courtesy of

Melinda Denton

E há o grupo de jovens religiosos constantemente comprometidos para quem a religião faz parte de um pacote mais amplo. Para estes, a religião não é o que conduz, mas sim o que complementa todo o restante da vida deles. Seu raciocínio segue esta linha: “Eu tenho emprego, formação, minha família e uma religião, e todas essas coisas se encaixam nesta versão de uma vida feliz”.

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A religião é importante na medida em que é uma parte significativa desse pacote mais amplo da vida deles. Tornou-se algo incorporado à rotina. Portanto, esses jovens estão dispostos a permanecer comprometidos. Eles frequentam a igreja regularmente e a fé faz parte de sua identidade. Mas eles têm uma percepção diferente sobre o papel que a fé desempenha em relação ao restante de sua vida.

Nas pesquisas, os dois grupos aparecem como religiosamente comprometidos. Ambos vão à igreja semirregularmente e acreditam em Deus. Eles parecem iguais nas pesquisas, mas em nossas entrevistas identificamos essa diferença entre os que são rotineiramente comprometidos com a religião, como um dos muitos aspectos de sua vida, e os altamente comprometidos — para quem a religião é de fato a força que move sua vida. Portanto, queríamos fazer essa distinção; mesmo que, com base nos dados da pesquisa, eles apareçam no mesmo grupo, há realmente essa diferença.

Você concentra grande parte da obra Back Pocket God naqueles que não abandonaram a fé e podem de fato estar até aumentando seu compromisso. Conte-nos sobre isso — algo que você chama de “alta categoria estável”.

Há um grupo de jovens que são religiosos ou comprometidos com a fé. Eles ainda frequentam regularmente a igreja e a fé faz parte da sua identidade. Esse grupo parece se manter estável ao longo do tempo.

Quando dizemos que o compromisso está cada vez mais forte, existem duas explicações para isso. A primeira é o desgaste — a eliminação daqueles que estavam menos engajados religiosamente. Então, como grupo, eles parecem mais religiosos porque você eliminou os indivíduos menos religiosos desse grupo. Isso certamente é em parte o que está acontecendo: o grupo em si pode ser menor, mas é um núcleo comprometido.

Também parece haver evidências de que aqueles que permanecem nesse núcleo de fato comprometido se tornam mais e mais comprometidos. À medida que crescem e passam da adolescência para a idade adulta — e esse foi o título do segundo livro, A Faith of their Own [Uma fé própria] , eles passam pelo processo de assumir a fé como algo seu, decidindo: “Vou abraçar essa fé ou não?” Assim, com o passar do tempo, a religião se torna mais incorporada à sua vida.

Portanto, por essas duas razões, quando comparamos os protestantes evangélicos comprometidos da Onda 4 [a última fase do estudo] com os protestantes evangélicos comprometidos da Onda 1 [a primeira fase do estudo], vemos ligeiros aumentos em questões como importância de fé, crença em Deus e esse tipo de coisa.

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Parece que há um esvaziamento no meio. Portanto, quando os cristãos nominais abandonam a igreja, aqueles que permanecem encontram-se no topo do engajamento religioso.

Sim. Não quero dar muita ênfase a isso, mas, em certo sentido, é o que acontece. Eu não diria que isso significa que essas pessoas estão empolgadíssimas com a fé. Algumas estão, mas creio que, como um todo, o nível caiu.

Esses jovens ainda estão no ponto alto; os que não saíram são comprometidos. Entre esse grupo, você tem um pequeno segmento para o qual a fé é a força motriz de sua vida. Essas pessoas estão se aprofundando e a fé tem se tornado cada vez mais o foco para elas.

Mas, para a maioria que ainda está na igreja, há um aspecto instrumental em seu compromisso religioso. O compromisso pode ser impulsionado pelo fervor religioso, mas mais frequentemente parece ser impulsionado pela ideia de que “esta é a vida que quero viver” ou “a fé facilita a vida que escolhi”. Para alguns, a religião faz parte desse pacote mais amplo de vida. Para eles isso está relacionado com viver o sonho americano, e a religião é apenas parte desse pacote. Mas, dito isso, por estarem comprometidos com o pacote, eles estão comprometidos com a fé.

Há um certo pragmatismo aí. E o nível está mais baixo. Então, os mais estáveis na fé estão operando abaixo do nível que esperaríamos encontrar talvez vinte ou trinta anos atrás. É isso mesmo?

Em termos de participação na religião organizada, essas expectativas são menores ao longo do tempo para esse grupo, com certeza. Em termos comparativos, simplesmente não há a expectativa de estar sempre na igreja ou de ser altamente ativo em uma congregação religiosa. Esse tipo de coisa.

Acabei de extrair uma citação do livro, que diz: “Relatos de gente que nunca comparece a cultos religiosos aumentaram 33 pontos percentuais em dez anos, de 18% da amostra, em 2003, para 51% da amostra, em 2013.” Essa é uma queda notável na frequência à igreja.

Correto. Quando olhamos para todas as outras métricas, não há esse grau de mudança. É na frequência que vemos a grande mudança. Eu mesmo, tendo seguido o estudo até o fim, quando vi aqueles 51%, fiz questão de refazer os cálculos, porque tinha certeza de que não estavam corretos. Eu pensei: “Isso é muita coisa”. Das pessoas entrevistadas, 51% nunca compareceram a cultos religiosos. Isso significa que basicamente metade de todos esses jovens nunca pôs os pés dentro de uma congregação religiosa. O que, por um lado, não é tão surpreendente, mas, por outro, é uma grande mudança, de 18% para 51% em dez anos. É dramático.

Isso é realmente dramático. As estatísticas refletem o esvaziamento do meio, mas a partir da outra extremidade do espectro.

Sim, é um grande aumento dos que nunca frequentam, e os que nunca frequentam estão vindo das categorias dos frequentadores esporádicos. O número de frequentadores semanais caiu quase pela metade, mas a maior mudança foi entre os que nunca frequentam.

Ao longo dos dez anos do estudo, você identificou alguma correlação entre a frequência à igreja e a importância que os jovens dão à fé na vida diária?

Sim, existe uma relação entre esses fatores; eles não são totalmente independentes um do outro. É enganoso pensar: “Tudo bem, os integrantes desta geração podem se afastar da religião institucionalizada, mas eles ainda terão uma vida espiritual interior vibrante”. Não terão. Isso não está acontecendo. Eles podem dizer em pesquisas que Deus é importante para eles, mas, na prática cotidiana, fazer parte de uma comunidade religiosa é importante para cultivar uma vida espiritual.

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Práticas e perspectivas caminham juntas.

O que isso significa para líderes, pais e pastores?

Bem, talvez tenhamos de reimaginar como é a participação na igreja. Estamos passando da fase do “se você construir, eles virão”. Eles não estão aparecendo. E isso importa.

O outro lado da moeda é que existe uma janela de oportunidade. Esses jovens não se opõem a se engajar, não se opõem à fé, nem à religião. Há ceticismo em relação à igreja, mas não há tanta animosidade em relação a ela. Então, o que dissemos no caso dos que são jovens é: “Não desista de envolvê-los; eles estão dispostos a se comprometer.”

Não há esse grupo de jovens que diz: “Oh, a igreja, não quero ter nada a ver com ela”. Simplesmente, esse engajamento não está no topo de suas prioridades de vida. Portanto, mesmo quando eles não estão frequentando a igreja nem estão realmente envolvidos, há uma oportunidade de se engajarem novamente nesse nível. Não sei se isso faz algum sentido.

Sim, faz.

O que vemos é que as pessoas estão mudando para as categorias “nunca frequenta” ou “não é religioso”, mas isso não está acontecendo da noite para o dia. Então, há essa janela entre quando eles não estão mais participando regularmente, mas ainda estão abertos à religião.

Os jovens adultos que você estudou podem se dizer leais à fé. Mas será que conseguem articular crenças doutrinárias específicas?

Na verdade, não. Mas, para ser justo, os adultos também não conseguem.

Isso é verdade.

Dissemos desde o início: “Aqui estão todas as nossas descobertas, mas, por favor, entendam que não estamos implicando com esse grupo de pessoas”. Não pensamos que elas estão sozinhas nessa falta de articulação. A questão é que elas estão na faixa etária que estudamos.

Na primeira rodada do estudo, vimos a resistência de pessoas que disseram: “Bem, eles têm entre 13 e 17 anos, é claro que não são articulados”. Mas não parece que se trata de uma questão de capacidade cognitiva. Não parece ter a ver com a idade. À medida que ficam mais velhos, esses indivíduos não ficam mais articulados a respeito da sua fé.

Não parece ser algo que eles achem particularmente importante serem capazes de articular. Suas respostas lhes parecem ser boas o suficiente. De tempos em tempos, chegamos e cutucamos, insistimos e pedimos que se expliquem, mas, além de nós, ninguém está pedindo que expliquem sua fé. Portanto, não constatamos mudanças ao longo do tempo no que se refere à articulação da fé.

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Uma vez que você está detectando essa incapacidade de articular as doutrinas, que medidas compensatórias você recomenda, se houver algumas?

Em parte depende do seu contexto. Não sei se a solução é diferente da que falamos há dez anos: conhecer as doutrinas da fé é como aprender uma segunda língua, é algo que você aprende por imersão. Então, se esse fenômeno não faz parte do que está ocorrendo em nossas congregações e em casa, com os pais; se os jovens não estão ouvindo essa “língua” regularmente, logo, não se trata de algo que se possa simplesmente ensinar em uma aula de catecismo ou como algo à parte.

É preciso fazer parte da cultura do grupo religioso para que seja assimilado. Não tenho certeza se é eficaz dizer: “Vamos promover um treinamento, vamos ter uma aula adicional, ou algo assim.” Isso precisa fazer parte da cultura da tradição religiosa. E por cultura me refiro à cultura da igreja, mas também à família — se seus pais estão falando sobre a fé no dia a dia do lar.

Seu colega Christian Smith cunhou um conceito que ficou conhecido como deísmo terapêutico moralista. Ele é mais predominante do que há dez anos?

Vimos esse fenômeno ocorrer na Onda 4 do estudo. Na verdade, nós o chamamos de “deísmo terapêutico moralista 2.0”. Em sua concepção original, a ideia é que Deus é um mordomo. Existe um ser divino lá fora e, quando eu precisar dele, posso tocar um sininho e requisitar seus serviços, pois o objetivo da vida é ser feliz. Mas, agora, houve uma mudança. A parte do deísmo diminuiu um pouco, e isso é referenciado no título do livro. Passamos de um Deus visto como mordomo divino para um Deus [que carrego] em meu bolso traseiro, e o papel de Deus tornou-se mais [o de um Deus] recrutado.

Então, penso que este pensamento ainda vigora: Deus foi reduzido ainda mais. Tornou-se alguém útil apenas para quando eu preciso dele. É uma perspectiva muito mais instrumental. Mas não creio que a mudança seja dramática. É apenas uma transformação do conceito original.

E a relação adjacente entre a igreja e a vida pública, entre a fé e a prática da fé na política?

Quando os jovens adultos falam sobre religião institucionalizada e a igreja, eu os ouço dizer: “Bem, elas caminham juntas no que se refere a todas as questões que são importantes para mim. E, na medida em que estão relacionadas, realmente não vejo como a religião muda as coisas — sendo que, em alguns casos, até torna as coisas piores. Posso ser uma boa pessoa, amar o meu próximo e acolher e aceitar os outros sem religião”.

Portanto, existe a sensação de que a religião está fora de alcance ou não é algo distinto. A pergunta é: como abordar as questões que são importantes para eles de uma forma que seja distinta, mas não alienante?

É um grande enigma sobre o qual líderes eclesiásticos e pais precisam pensar.

Sim. Temos de enfrentar duas questões difíceis: o que a igreja tem a oferecer que os jovens adultos não podem obter em nenhum outro lugar? E como podem aceitar o que a igreja tem a oferecer sem que isso os separe do mundo ao qual desejam estar engajados?

Traduzido por: Maurício Zágari

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