Como alguém que cresceu na igreja, eu certamente ouvi muito sobre Jesus. Mas pouco antes do Salvador, ouvi inúmeras histórias sobre o Rei Davi: histórias de bravura, coragem, poder, confiança, riscos, batalhas, guerras, triunfos e conquistas.

Os cristãos sempre reconheceram a condição caída de Davi até certo ponto, em particular o fato de ele ter ido atrás de Bate-Seba, algo que normalmente tem sido considerado (e condenado como) adultério. Ultimamente, tem havido um grande debate sobre o que exatamente aconteceu entre Davi e Bate-Seba, e se esse fato deve ser caracterizado como estupro.

Esta não é uma conversa nova, o que é sempre importante lembrar em nossa era de tópicos “quentes”. Denny Burk, professor do Boyce College e presidente do Council on Biblical Manhood and Womanhood, aponta para um artigo de jornal de Alexander Abasili que abordou essa questão em detalhes, em 2011, anos antes do escrutínio do movimento #MeToo.

Nem todo interesse nesta questão decorre da atual pressão cultural ou capitulação; há uma pergunta legítima e importante sobre como entendemos Davi nesta história.

Concordo com a análise de Abasili de que a história não inclui os detalhes que parecem ser específicos para circunstâncias de uma compreensão hebraica de estupro — ou seja, o uso de força física direta e a vítima clamando angustiada por socorro. E, no entanto, a história de Davi e Bate-Seba parece, para muitos leitores modernos, inclusive para mim, atender às definições contemporâneas de estupro.

Então, o que devemos pensar sobre isso? Davi realmente estuprou Bate-Seba? E por que importa que nós, como cristãos, tenhamos uma compreensão correta disso hoje?

Jesus expande a lei

Embora Abasili estabeleça que a história de Davi e Bate-Seba não atende aos critérios de estupro detalhados na lei bíblica, o professor do Antigo Testamento, David Lamb, escreveu anteriormente para a CT sobre isso, descrevendo um argumento básico de que Davi era culpado de “estupro de poder em vez de adultério”, já que Bate-Seba não tinha escolha.

Mas a questão não é apenas se seguimos as leis do Antigo Testamento ou as nossas próprias leis modernas. A própria Escritura nos aponta para que olhemos de forma mais profunda o coração que estava por trás do comportamento de Davi.

No Novo Testamento, Jesus Cristo não diminui o impacto da lei, ele a amplia e intensifica esse impacto: “Vocês ouviram o que foi dito: ‘Não adulterarás’. Mas eu digo a vocês que todo aquele que olhar para uma mulher com intenção lasciva já cometeu adultério com ela em seu coração” (Mateus 5.28).

De acordo com uma leitura básica da lei do Antigo Testamento, olhar para uma mulher com intenção lasciva não atende aos critérios de adultério. Mas, quando lemos o mandamento contra o adultério através das lentes das instruções de Cristo sobre a lei, descobrimos que olhar com intenção lasciva para alguém que não seja o próprio cônjuge é, e sempre foi, adultério.

Jesus muda o foco dos detalhes da lei para a intenção e a motivação do coração. E ele não faz isso apenas com adultério. Ele o faz toda vez que discute a lei.

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Se abordássemos a lei do Antigo Testamento sobre estupro da mesma forma que Jesus aborda vários aspectos da lei, teríamos que olhar para além dos detalhes explícitos, enumerados no código da lei, e perguntar: O que está acontecendo no coração e na mente de Davi, quando se trata de Bate-Seba?

Pensando na questão dessa forma, a defesa de que as ações de Davi não atendem aos critérios para estupro enfraquece consideravelmente e, de fato, perde a razão de ser.

A repreensão de um profeta

Usando o princípio hermenêutico básico de que a Escritura deve interpretar a própria Escritura, encontramos mais contexto sobre as motivações de Davi a apenas alguns parágrafos de distância, em 2Samuel 12, quando ele é repreendido pelo profeta Natã.

Natã descreve um desequilíbrio de poder entre um homem rico e um homem pobre, onde o pobre tinha um cordeiro precioso que ele amava muito, como a um filho, e o homem rico, sem piedade, levara o único cordeiro do pobre homem para preparar para um convidado (uma maneira de ganhar mais capital social recebendo bem este hóspede).

Natã diz a ele: “Você é esse homem!” na história e, em seguida, expande a autocondenação de Davi: Deus fez de você um rei, ele o libertou, ele lhe deu tudo o que você tem, e isso não foi suficiente. Você roubou, explorou, matou e fez isso “secretamente” para proveito egoísta. Mesmo de acordo com Davi e Natã, o pecado de Davi não foi meramente ter dormido com Bate-Seba, mas ter feito isso de maneira a enlamear-se por sua exploração de poder, sua trapaça e em proveito próprio. O desequilíbrio de poder é claramente apontado.

Natã continua a descrever o destino do marido de Bate-Seba, Urias: “Você feriu Urias, o heteu, com a espada e tomou sua esposa para si e o matou com a espada dos amonitas” (2Samuel 12.9).

Talvez mais intrigante do que determinar as motivações de Davi seja a nossa própria determinação de poupá-lo da perda de reputação.

Natã usa uma linguagem de conquista que posiciona Davi como um assassino, aquele que o “feriu” e “o matou”. E, no entanto, sabemos que Urias não morreu pela espada do próprio Davi, mas por uma espada que agiu pela de Davi, depois de ser enviado para as linhas de frente. Embora suas ações não constituam assassinato, segundo os termos detalhados estabelecidos no Antigo Testamento, nós vemos Davi como alguém absolutamente responsável pela morte de Urias.

Quando a questão é se Davi assassinou Urias, os leitores geralmente se sentem à vontade para expandir o modo que deve ser lida a lei que define o assassinato no Antigo Testamento. Mas quando perguntamos se Davi estuprou Bate-Seba, alguns leitores recuam, exigindo precisão sobre o que a lei diz expressamente sobre estupro.

O foco de Jesus e de Natã na intenção e nas motivações do coração nos dá uma boa razão para olhar além da letra da lei. A história de Davi e Bate-Seba não é uma história de adultério ou de um caso amoroso, mas sim a história em que um homem poderoso está explorando sexualmente uma mulher vulnerável e está disposto a usar o poder coercitivo para trazê-la ao seu quarto e encobrir suas ações.

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Nossa defesa de Davi

Talvez mais intrigante do que determinar as motivações de Davi seja a nossa própria determinação de poupá-lo da perda de reputação. Não queremos que Davi seja um estuprador. Na verdade, achamos mais fácil suportar a ideia de que ele seja um assassino de um homem do que um abusador de uma mulher.

E, se a preponderância dos sermões é alguma indicação, os cristãos historicamente têm estado dispostos a comprometer a reputação de Bate-Seba para manter qualquer má reputação (tirando o adultério) bem longe de Davi. Isso não faz o menor sentido, principalmente porque na Escritura, Bate-Seba nunca é acusada, julgada ou nem mesmo difamada de alguma forma pelo que aconteceu.

Davi, porém, não é apenas mais uma figura na Bíblia. Ele é o “homem segundo o coração de Deus”, defendido tanto como uma figura heróica para meninos na escola dominical quanto como objeto de estudos cristãos sobre virilidade e masculinidade.

A frase que tantas vezes associamos ao rei bíblico não é um endosso irrestrito ao exemplo de Davi, nem a ideia de que ele representa, como homem, o que significa ser como Deus. A frase significa que Davi foi o homem escolhido por Deus como rei de Israel. John Woodhouse diz que esta frase “fala sobre o lugar que o homem tem no coração de Deus, e não do lugar que Deus tem no coração do homem”.

A Escritura está cheia de pessoas caídas, e o Rei Davi, apesar de todas as suas virtudes, é um homem caído. Então, por que essa história em particular se tornou tão controversa para nós? Estou convencido de que não queremos que Davi seja um estuprador porque não queremos confrontar o pecado do abuso de poder.

Se Davi foi tão-somente um homem fraco que caiu vítima de uma mulher tentadora em uma noite solitária, então, não temos de lidar com a realidade muito mais insidiosa: a de que Davi foi um dos muitos (em sua maioria, homens) ao longo da história que usaram seu poder para cometer exploração sexual. Ele aproveitou-se de sua posição como rei para matar um homem inocente, depois de ter usado seu poder para convocar e explorar sexualmente a esposa desse mesmo homem.

É de admirar que esse grande mal tenha permanecido amplamente inexplorado na história de Davi, quando a maioria daqueles encarregados de contar a história tinham alguma vantagem para não apontá-la? Quando chegamos à história de Davi e Bate-Seba, os que mais se beneficiariam de se sentar sob um impacto contido da história são aqueles que eram responsáveis ​​por contá-la. Os líderes espirituais em nossas igrejas, principalmente pastores do sexo masculino, devem estar dispostos a contar a história do jeito que está escrita: como uma acusação de abuso de poder espiritual para exploração. Eles devem pesar sua vida e a cultura de liderança em sua igreja por essa balança.

Temos de considerar que podemos ter interpretado mal esta história de maneira grave. Nosso mal entendimento e a deturpação do que aconteceu com Davi e Bate-Seba podem resultar em uma compreensão truncada da boa visão de Deus sobre poder e sexo, justamente quando precisamos tão desesperadamente de uma visão santa para essas coisas.

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Talvez a história de Davi não seja somente uma história legal sobre gigantes derrotados e batalhas vencidas, mas seja também uma história de advertência sobre a maneira como o poder pode corromper até mesmo os mais nobres. E que o mesmo poder que um rei havia usado anteriormente para defender os vulneráveis ​​pôde ser usado para explorar os vulneráveis.

A história de Davi e Bate-Seba convida a todos nós, mas particularmente àqueles que ocupam posição de autoridade e liderança espiritual, para que consideremos se estamos fazendo uso do dom de Deus da maneira que ele pretende. O poder é um dom de Deus, mas a tentação de usá-lo em proveito próprio e egoísta é infinitamente sedutora e está sempre presente. Aqueles a quem foi confiado o poder devem olhar para o Filho de Deus, Jesus Cristo, como o paradigma do exercício fiel do poder.

Ele, que possuía tudo por direito, entregou tudo por amor. Cristo, a quem pertencia o mundo inteiro, abordou os vulneráveis ​​com cuidado e honra. Cristo usou seu poder para dignificar os vulneráveis ​​e defender os envergonhados. E nós, o que faremos com o poder que nos foi dado?

Kyle Worley plantou e serve como um dos pastores da Mosaic Church em Richardson, Texas. Ao lado de Jen Wilkin e JT English, ele atua como um dos apresentadores do podcast Knowing Faith . Você pode segui-lo no Twitter @ kyleworley.

Traduzido por: Mariana Albuquerque

Editado por: Marisa Lopes

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