Há muito tempo, o apóstolo Paulo escreveu: “Deus decidiu, pela loucura da nossa proclamação, salvar os que creem” (1Coríntios 1.21, NRSV, versão usada em todo o texto). A pregação, segundo ele sugere, é essencial para os propósitos de Deus. Ao mesmo tempo, Paulo reconhece de forma implícita que a pregação dificilmente parece ser um meio sensato para os propósitos de Deus. Palavras apenas? E palavras inevitavelmente imperfeitas. Que loucura! Loucura, mesmo naquela época.

Mas se Paulo tivesse vivido nos dias de hoje, em uma cultura tão visual como a nossa — e cada vez menos atenta a discursos verbais extensos —, ele poderia ter dito algo diferente? Será que ele poderia ter dito que Deus decidiu usar a loucura dos nossos longas-metragens, da nossa publicidade e da nossa arte visual para salvar os que creem?

Afinal, aprendemos a ser sensíveis ao contexto cultural tanto das possibilidades históricas que constrangem os escritores dos textos bíblicos, que nunca viram uma tela de cinema ou de televisão ou de um tablet, quanto ao contexto cultural das demandas de nossa própria situação. Paulo disse na mesma carta: “Tornei-me tudo para todos, para por todos os meios salvar alguns” (1Coríntios 9.22). Os evangélicos em particular foram rápidos em adotar novos métodos, ansiosos por usar todos os meios adequados na esperança de salvar alguns. Não podemos negar o poder que os recursos visuais têm de nos comover, de nos conectar tanto com o coração quanto com a mente. Há muito tempo os pregadores são ensinados a falar de modo que as pessoas possam visualizar aquilo que está sendo falado. Imagens, especialmente imagens em movimento, nos compelem de maneiras que somente palavras em geral não o fazem. Certamente devemos tirar proveito dessas dádivas.

Além disso, Deus criou um mundo físico e visível. Ele não escolheu criar apenas criaturas espirituais que se ocupassem de ideias abstratas. Ele se encarnou neste mundo, agindo nele em nosso favor. Na literatura sapiencial, bem como nas parábolas de Jesus, somos encorajados a olhar para o mundo natural para alcançar entendimento — desde a diligência da formiga, ao poder do fermento e à beleza despreocupada dos lírios. Nos sacramentos (batismo e ceia do Senhor), falamos que a Palavra se torna visível. E consideramos os raros cristãos que não seguem nenhuma observância sacramental como praticantes de uma versão truncada da fé.

Então, será que os reformadores tomaram um rumo errado, quando se afastaram decididamente da ênfase significativa no visual que vemos nas igrejas católica romana e ortodoxa oriental? Os reformadores moveram o púlpito para o centro do santuário, para onde ficava o altar. Alguns até se engajaram no que muitos de nós hoje vemos como excesso: quebraram vitrais e removeram obras de arte que eram entendidas, ao menos em parte, como livros ilustrados para analfabetos.

Não é que os reformadores tenham ignorado o visual. Em vez disso, eles se preocupavam ativamente com a possibilidade de o visual suplantar a Palavra (e também com a quebra do segundo mandamento, que proíbe a idolatria). Assim, “somente a Escritura, somente a fé, somente a graça” foi o grito de guerra da Reforma, e podemos prontamente citar textos como Romanos 10.17: “a fé vem pela pregação, e a pregação vem pela palavra de Cristo.”

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Os reformadores acreditavam que o Espírito Santo fazia uso especial das Escrituras e do ouvir a Palavra pregada para levar as pessoas a Cristo de maneira absolutamente essencial à fé. Por que acreditavam nisso? Circunstâncias históricas, inclusive a corrupção na igreja ocidental que comprometia suas alegações de autoridade, naturalmente desempenharam um papel importante. Os protestantes passaram a entender as Escrituras, e não a tradição, como o árbitro decisivo da verdade cristã. Mas havia e ainda há mais do que circunstâncias históricas. Duas questões-chave merecem destaque: as limitações das imagens em relação à transmissão de significado e a questão do endereçamento pessoal.

Imagens não são suficientes

Ninguém duvida que as obras visuais evoquem emoção, mas se você perguntar aos artistas o que seu trabalho significa, eles responderão, cobertos de razão: “Se eu pudesse te dizer [o que significa], eu não teria pintado [ou esculpido ou filmado] isso”. E as pessoas perspicazes geralmente desprezam a arte “predicativa” — a arte que trai sua integridade para transmitir uma mensagem abertamente. Mas os símbolos e ações cristãs significam praticamente tudo. A cruz é apenas um arranjo arbitrário de pedaços de madeira ou é nada mais do que um antigo método de execução por tortura ou é um sinal da nossa salvação? Pedaços de madeira não nos dizem [nada], e não sabemos [algo] sem que nos seja dito. A Ceia do Senhor é um ritual estranho, ou é um lanche inadequado ou, no mínimo, uma comunhão que compartilhamos justamente quando nos lembramos da morte de Jesus em nosso favor? Até mesmo os vitrais [das igrejas] tinham de ser explicados em sermões.

Hoje, professores que dão boas aulas ou escrevem bons livros sobre “teologia através do cinema” geralmente têm um conhecimento sofisticado da teologia clássica. E se eles não ministrassem essas aulas nem escrevessem esses livros, as pessoas jamais descobririam como os temas cristãos aparecem nos filmes. Se o conhecimento clássico não for mais transmitido por palavras, perderemos a capacidade de ver as artes visuais com olhos profundamente cristãos.

Algo semelhante acontece com os atos de caridade cristã. Quando o caráter culturalmente opressivo de alguma obra missionária se torna muito claro, alguns pensam que o melhor caminho a seguir é simplesmente ajudar as pessoas com suas necessidades urgentes, de forma tácita — mas apenas de forma tácita — em nome de Cristo. Não funcionou, pelo menos não como testemunho cristão. O texto de 1Pedro 3.15 nos instrui a estarmos sempre prontos a fazer uma defesa ou a dar uma resposta a qualquer um que perguntar sobre a esperança que há em nós. Sem essa resposta, sem a proclamação do evangelho, boas obras e outras evidências, por mais apreciadas que sejam, não levam ao conhecimento de Cristo. O próprio Jesus deu uma palavra definitiva sobre esses assuntos, quando contou a parábola em que Abraão se recusou a fornecer um sinal à família do homem rico no Hades: “Se eles não ouvem a Moisés e aos profetas, também não serão convencidos, ainda que alguém ressuscite dos mortos ” (Lucas 16.31). Mesmo o maior dos milagres — das manifestações visíveis — não converterá um coração fechado à Palavra de Deus.

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As palavras também nos ajudam a fazer distinções necessárias — algo que encontra forte resistência em alguns círculos hoje, uma vez que distinções e julgamentos sobre a verdade parecem ser tudo, exceto acolhedores e tolerantes. No entanto, tais distinções são indispensáveis para preservar a verdade cristã e fomentar o discernimento moral (1Coríntios 11.19; Hebreus 3.12-13).

Por exemplo, quando a igreja ainda jovem enfrentou uma de suas primeiras decisões doutrinárias críticas, sobre se Jesus era em essência um com Deus ou apenas semelhante a Deus (a controvérsia ariana), os escarnecedores ridicularizaram o debate como uma controvérsia sobre um iota — a menor letra do alfabeto grego —, uma vez que os termos em questão (homoousios, “da mesma substância” e homoiousios, “de substância semelhante”) diferem apenas por essa letra. A igreja acreditava, no entanto — como os cristãos ortodoxos em todos os principais ramos da igreja continuam a acreditar — que há um sentido real no qual nossa salvação está em jogo aqui: Se Jesus não é Deus, ele não pode nos salvar. Erros doutrinários sobre pontos cruciais têm consequências cuja importância se expande cada vez mais, assim como desviar-se da trilha, por menor que seja o ângulo [do desvio], acaba levando a pessoa para bem longe do destino pretendido. G. K. Chesterton colocou isso de forma impressionante:

A Igreja não podia se dar ao luxo de desviar um fio de cabelo que fosse em algumas coisas, se quisesse dar continuidade a sua grande e ousada experiência de equilíbrio irregular. [...] Não era um rebanho de ovelhas que o pastor cristão estava liderando, mas sim uma manada de touros e tigres, de ideais terríveis e doutrinas vorazes, cada qual forte o bastante para se voltar para uma religião falsa e devastar o mundo. [...] Um deslize que seja nas definições pode interromper todas as danças; pode murchar todas as árvores de Natal ou quebrar todos os ovos de Páscoa.

Chesterton fornece uma imagem visual bem gráfica — dada em palavras — para enfatizar uma precisão que somente imagens não podem alcançar.

Para abençoar ou amaldiçoar

No entanto, o significado e a verdade em abstrato, por mais precisos que sejam não serão suficientes, se não penetrarem em nossos corações e mentes. Para este fim, o poder das palavras é tão eloquente quanto [o das imagens] e provavelmente mais misterioso. Por que as palavras, diferentemente de paus e pedras, podem quebrar muito mais do que ossos? Qualquer pessoa que fique perplexa com o testemunho bíblico de que bênção e maldição fazem uma diferença real no mundo deve conversar com crianças que cresceram em lares onde as palavras de seus pais tiveram profundos efeitos positivos ou negativos sobre elas. Muitos adultos testemunharão que uma única declaração feita a eles, quando ainda eram jovens, continua a ecoar em seus ouvidos de maneira inescapável. Uma palavra dita a nós por alguém de fora tem um poder incrível, muito mais do que as palavras que dizemos a nós mesmos. Por exemplo, quem tem mais probabilidade de se abster fielmente de comer carne de porco, alguém que tenta manter uma dieta por motivos pessoais ou alguém cuja religião proíbe comê-la?

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As palavras ditas por outros podem manipular e destruir, mas também podem reconstruir e consolar. Isso é o que acontece quando a outra pessoa nos concede o perdão. E é um mau conselho dizer às pessoas que perdoem a si mesmas, pois isso é justamente algo que não fomos criados para fazer. Precisamos que alguém nos diga que fomos perdoados. Simplesmente saber não é suficiente. Precisamos que nos repitam muitas vezes até mesmo aquilo que sabemos.

Pregar o evangelho não é uma mera questão de transmitir informações. Quando a Palavra é genuinamente pregada e recebida, ela entra na alma através do ouvir — com esperança e promessa, desafio e absolvição, bênção e consolo.

Uma professora cristã que conheço, que dá aulas para o jardim de infância, me contou a história de uma garotinha que se viu no meio de um divórcio violento dos pais. Subindo no colo da minha amiga, a menina disse: “Diga-me novamente que Jesus me ama. Eu continuo esquecendo.” Dentro de si mesma, a menina sabia que Jesus a amava, mas ela ainda precisava ouvir isso de alguém de fora. Assim afirma o antigo hino gospel de Katherine Hankey: “Adoro contar a história, para quem a conhece melhor / Parece faminto e sedento de ouvi-la como o restante”.

Pregar o evangelho, então, não é só transmitir informações. Quando o evangelho é genuinamente pregado e recebido, ele entra na alma por meio do ouvir — com esperança e promessa, desafio e absolvição, bênção e consolo. Ele não apenas ordena, mas concede o que ordena, pelo poder do Espírito Santo. Não pede ao ouvinte que acredite em coisas impossíveis antes do café da manhã como evidência de fé. Em vez disso, transmite a realidade do Cristo vivo como a única coisa verdadeiramente necessária para a vida humana e um futuro eterno.

Imagens, estáticas ou em movimento, não podem fazer tais coisas. Dizer isso não significa negar que as artes enriquecem a vida humana nem significa impedi-la de entrar no santuário. Na verdade, elas podem ter valor positivo. No entanto, os recursos visuais às vezes são intromissões, como quando adições de PowerPoint a sermões (seja com texto ou imagens) dividem o foco de atenção dos ouvintes e impedem seriamente a comunicação direta. Analistas seculares são incisivos quando nos pedem para imaginar o discurso “Eu tenho um sonho” de Martin Luther King Jr. apresentado em PowerPoint, ou quando fornecem uma apresentação de slides simulada para acompanhar o “Discurso de Gettysburg” de Abraham Lincoln. Um videoclipe que não trata da questão exata de um texto bíblico e não serve para elucidá-la acaba sobrecarregando o sermão. Acaba deixando implícito que algo além da Palavra na realidade nos capacitará a viver de maneira fiel diante de Deus e de nosso próximo.

Deus criou o mundo físico falando (Gênesis 1; Salmos 33.6,9). Podemos até sugerir que ele nos constituiu como seres humanos ao falar, ao nos dar nosso papel distinto na criação (Gênesis 1.28). Podemos pensar ao olhar para outra pessoa: “Fala, para que eu te veja”; e ao ouvir uma pessoa com deficiência física grave falar, podemos ficar envergonhados quando reconhecemos que antes não a enxergávamos de verdade. O próprio Jesus é conhecido como o Logos, a Palavra, por meio de quem todas as coisas foram feitas (João 1.1-3). E o termo logos carrega o sentido da estrutura de toda realidade. Então, talvez a escolha de Deus de pregar, de usar palavras para dar nova vida aos que creem não seja assim tanta loucura, afinal.

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Marguerite Shuster é Professora Emérita da cátedra Harold John Ockenga de pregação e teologia e professora sênior de pregação e teologia no Seminário Teológico Fuller.

Traduzido por Mariana Albuquerque.

Editado por Marisa Lopes.

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