O apóstolo Paulo é a figura mais conhecida da fé cristã, depois de Jesus, evidentemente. Apóstolo intrépido, plantador de igrejas, teólogo, pastor, escritor. Paulo é nosso herói. Ele é um modelo de fé para nós.

Mas uma leitura cuidadosa de suas cartas demonstra que ele tinha muitos inimigos, dentro e fora da igreja, e parece que os cristãos de sua época o consideravam uma figura controversa. Setores do cristianismo de sua época desafiavam Paulo apaixonadamente e até mesmo desprezavam o apóstolo e seu ministério. Por exemplo, quando Paulo, na prisão, escreve aos filipenses, ele os informa que alguns crentes ao seu redor estavam falando sobre Cristo, por assim dizer, apenas para causar sofrimento a Paulo, enquanto estava preso (Fp 1.15-17). Eles queriam arruinar seu ministério; eles queriam arruiná-lo.

Talvez o lugar mais óbvio para procurar um confronto direto entre Paulo e uma forma rival de cristianismo seja em 2Coríntios, onde Paulo teve de se defender contra os ataques dos chamados “superapóstolos” (11.5) . Estes o caluniaram, alegando que ele não tinha as credenciais certas. Disseram que eram fortes, mas Paulo era fraco. Queriam que o cristianismo paulino fosse menor e que o cristianismo deles fosse maior. Parece que havia grupos cristãos que constantemente tentavam acabar com a influência de Paulo, arrastar seu nome para a lama e atrair seus “filhos” para longe dele.

Ao longo dos anos, tenho me perguntado: Como Paulo se sentia ao ser odiado, caluniado e constantemente minado por outros cristãos? Todos nós queremos ser amados pelo maior número possível de pessoas. Queremos que nossas ideias e valores tenham repercussão. Mas onde existem grandes ideias e planos também existem críticos. Com plataformas maiores, vem uma crítica mais ampla, que às vezes pode levar à necessária responsabilização.

A crítica pública existe desde antes da época de Paulo até hoje. Ele também estava cercado por ruídos que lhe diziam que era indesejável, incorreto e até corrupto. Como ele lidou com isso? Como era essa sua forma de liderança resiliente? Hoje, pastores e outros tipos de líderes enfrentam uma enxurrada de negatividade que pode parecer esmagadora. Há tanto ruído nas redes sociais — bons, ruins e neutros — que fica difícil saber a quem ouvir, a quem pedir desculpas e para onde direcionar a voz. Depois de duas décadas estudando Paulo, aqui estão minhas percepções sobre o que sua vida no primeiro século tem a nos dizer hoje.

Mantenha a formação

Ao longo dos últimos cinco anos, tornei-me um superfã de futebol. Eu assisto ao futebol europeu, ao futebol sul-americano e torço pelo meu time local no Oregon. Há uma frase que você ouvirá de treinadores e comentaristas sobre como uma equipe com dificuldades deve superar os obstáculos no jogo: Mantenha a formação. Quando as fichas estão baixas, quando as probabilidades estão contra você, quando você está perdendo de três a zero antes do intervalo — siga o plano de jogo, cada um permaneça na posição que lhe foi designada, confie em seus companheiros de time e mantenha o foco.

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Paulo parece ter sido um líder do tipo que “mantinha a formação”. Com isso, quero dizer que, quando ele via coisas dando errado, fosse nas igrejas que ele fundou fosse naquelas pelas quais era responsável, ele não atacava líderes específicos da igreja. Talvez o que seja mais impressionante é que, quando pessoas de fora da igreja, inimigas ou criadoras de problemas, estavam envolvidas (como parece ser o caso de Gálatas, 2Coríntios e talvez Filipenses), Paulo se concentrava na formação de seu povo; ele não gastava sua energia corrigindo seus inimigos.

Temos cerca de uma dúzia de cartas que Paulo escreveu a igrejas e a líderes individuais de igrejas, como Timóteo e Tito. Mas não temos nenhuma carta que Paulo tenha escrito para seus inimigos. Ele certamente poderia tê-las escrito. Ele poderia tê-los repreendido, poderia tê-los exortado, ameaçado, discutido com eles. Mas, ao que parece, ele não fez nada disso. Pelo contrário, ele concentrou um foco como o de um raio laser na formação de igrejas e no fortalecimento da fé de seu próprio povo.

Sim, é claro que ele estava preocupado com a influência negativa dos estranhos, mas seu foco não estava neles. Ele permaneceu fiel à sua missão e ao seu ministério, manteve a formação de sua vocação e se recusou a se distrair e a se envolver em guerras teológicas para agradar a todos. É algo impossível e sabemos disso, embora às vezes tentemos. Paulo manteve seus olhos voltados para sua própria comunidade e para ela direcionou sua voz.

Não compare

Paulo conhecia suas limitações. Deus o chamou para algo, ele tinha certos dons, mas também tinha suas fraquezas. Os coríntios (como muitos de nós!) gostavam de classificar os líderes e apoiar alguns (#Time de Paulo vs. #Time de Apolo). Apolo era o novo garoto legal do bairro. Ele era um orador polido e elegante, o Andrea Bocelli da pregação. Paulo não era. Paulo poderia ter atacado Apolo para aumentar o número de seus apoiadores, mas, em vez disso, tentou colocar tudo em perspectiva para os cristãos coríntios: Eu tenho minha parte a cumprir, Apolo tem a dele, é em Deus que devemos nos concentrar. Ele faz tudo acontecer (1Co 1.10-17).

Às vezes, a rede social pode parecer um jogo de basquete — em que só ganho se você perder. Paulo, porém, quando era hostilizado, rejeitado ou odiado, não fazia o jogo de tirar a atenção negativa de si mesmo e transferi-la para outra pessoa. Ele não entrava em jogos do tipo “ganha-perde” com outros líderes. Paulo ativamente desencorajava a comparação de seu ministério com o de outros. Todos nós, segundo Paulo, devemos jogar no time de Jesus.

Convide as pessoas a “verificarem suas ações”

Paulo não tinha medo de se defender, quando era acusado de comportamento escuso ou de alguma transgressão. Mas ele não se envolvia em difamação, nem atacava ninguém. Ele apenas dizia: venham verificar minhas ações. Minha vida é um livro aberto. Eu não faço negócios escusos pelos becos, eu não escondo aquilo que faço. Os tessalonicenses, por exemplo, aparentemente suspeitavam do comportamento de Paulo.

Sem ficar na defensiva nem zangado, ele disse: “Vocês bem sabem a nossa linguagem nunca foi de bajulação nem de pretexto para ganância; Deus é testemunha. Nem buscamos reconhecimento humano, quer de vocês quer de outros”(1Ts 2.5,6). Mais tarde, ele os lembrou de seu trabalho e sua labuta públicos: “trabalhamos noite e dia para não sermos pesados a ninguém, enquanto lhes pregávamos o evangelho de Deus.
Tanto vocês como Deus são testemunhas de como nos portamos de maneira santa, justa e irrepreensível entre vocês, os que creem”(2.9,10).

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Você pode ser desprezado, rejeitado ou recusado [como líder], mas a melhor defesa é uma vida honesta. É não ter nada a esconder. Paulo não perdeu a calma com os tessalonicenses. Ele os convidou a colocar sua vida à prova e lembrar de seu comportamento.

Tenha cuidado com a questão de dar nomes

Há outra observação crucial a fazer sobre como Paulo lidava com acusações e suspeitas no mundo cristão: ele não citava nomes. Isto é, embora ele falasse sobre criadores de problemas e inimigos em várias de suas cartas no Novo Testamento, não sabemos o nome de nenhum deles. Nossa atual cultura das mídias sociais aprecia qualquer oportunidade que tem de lançar granadas nomeando (e até marcando) malfeitores, aquelas pessoas que merecem ser denunciadas. Obviamente, os indivíduos que cometem crimes ou se envolvem em comportamentos claramente antiéticos precisam ser levados à justiça. Não é disso que estou falando aqui. Essas pessoas destrutivas devem ser nomeadas e denunciadas. Muitas vezes, porém, acabamos caluniando ou zombando de qualquer pessoa que achamos irritante, ofensiva ou que está errada.

Paulo certamente encontrava pessoas assim, o tempo todo. E pior ainda, ele teve boa fé ao lidar com os falsos evangelistas. Eram pessoas que poderiam causar sérios danos à igreja e à teologia correta. Mas não sabemos o nome de nenhum deles. Paulo alertava regularmente sobre os falsos líderes, mas estava muito mais preocupado em manter seu povo em um caminho saudável e verdadeiro do que em conduzir julgamentos a bruxas e inquisições para expulsar os hereges do momento. (Claro, isso nunca significa fechar os olhos às injustiças e aos abusos contra os quais nossa consciência clama.)

Paulo não queria fazer uma lista de pessoas para seu povo evitar ou odiar. No final das contas, ele queria ensinar as pessoas a pensarem e a discernirem por si mesmas, a se tornarem mestres do evangelho, de forma que pudessem detectar qualquer teologia que fosse falsificada.

Mostrar fraqueza

Tenho idade suficiente para me lembrar dos comerciais de antitranspirantes dos anos 80: “Nunca deixe que te vejam suar”. O que realmente estava implícito era: não mostre esforço nem fraqueza; mostre uma fachada estóica de perfeição e poder. Contudo, Paulo era alguém que não tinha medo de mostrar sua fragilidade, sua fraqueza e suas necessidades. Ele se gloriava em seus fracassos e suas limitações (“eu me gloriarei [...] em minhas fraquezas”), frustrando qualquer tentativa de construir um culto em torno de sua personalidade. Ele não tentou repelir todas as críticas. Às vezes, ele as absorvia, detectando uma oportunidade de desarmar o jogo difamatório.

Paulo não tinha medo de falar sobre suas decepções e lutas. Ele compartilhava momentos de medo, tristeza e vulnerabilidade. Falou sobre sua tristeza, ao pensar em seu amigo Epafrodito que estava morrendo (Fp 2.27). Confessou aos coríntios que seu relacionamento tenso com eles o levou às lágrimas (2Co 2.4). Um dos trechos mais comoventes das cartas de Paulo ocorre na ocasião em que ele informa a seu amigo Timóteo que, quando foi a julgamento, ninguém veio em seu apoio; ele só pôde contar com o apoio do Senhor (2Tm 4.16,17) e do médico Lucas, que o visitava na prisão (v. 9).

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Ser um líder respeitado e resiliente não pode e não deve incluir a construção de uma bolha de proteção que oculte do mundo exterior nossos fracassos, nossas lutas e fraquezas. Paulo, de forma corajosa, compartilhou abertamente que ele não era alguém perfeito e sem pecado. Ele tinha orgulho de seu ministério, mas nunca fingiu ser mais do que era. E tinha lá seus arrependimentos. Ele teve momentos difíceis. Paulo era orgulhosamente fraco.

Ninguém quer ser odiado, rejeitado nem ridicularizado. Às vezes é necessário que as pessoas se afastem dos holofotes e dos olhos do público. Para o restante de nós, porém, esses “ruídos” decorrentes da vergonha e do escárnio público é algo normal. A sabedoria ancestral e o modelo de Paulo parecem fornecer um caminho que evita contra-ataques automáticos, impensados, por um lado, e o desespero total, por outro.

Aos filipenses, Paulo escreveu certa vez que tentava não olhar para trás nem pensar em seu passado de erros. Ele bem pode estar nos alertando também, a fim de não perdermos muito tempo olhando para o que todos pensam de nós. Em vez disso, avancemos para as coisas que estão adiante para cumprir nosso chamado (Fp 3.13).

Nijay K. Gupta é professor de Novo Testamento no Northern Seminary, em Lisle, Illinois. Ele é o autor de Paul and the language of faith.

Traduzido por Mariana Albuquerque

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