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Centenas de pastores russos se opõem à guerra na Ucrânia

(ATUALIZADO) Os evangélicos ucranianos clamam por mais Bonhoeffers, enquanto os evangélicos russos discutem se o protesto público sob o governo de Putin pode alcançar mais do que a oração.
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Centenas de pastores russos se opõem à guerra na Ucrânia
Image: Contribuidor/AFP/Getty Images
Uma mulher segura um cartaz com a mensagem “Pare a guerra”, no centro de Moscou, em 3 de março de 2022, durante um protesto contra a invasão da Ucrânia pela Rússia.

Os evangélicos ucranianos estão fartos.

Desgastados por uma semana de guerra (a invasão aconteceu no dia 24 de fevereiro e 2022), eles ouviram inúmeras orações pela paz serem proferidas por seus colegas russos. Mas não ouviram uma palavra sequer de condenação.

“As organizações de vocês parabenizaram Putin, agradecendo a liberdade de crença”, disse Taras Dyatlik, diretor regional do Overseas Council para o leste Europeu e a Ásia Central. “Chegou a hora de fazerem uso dessa liberdade.”

Na medida em que Kiev, Kharkiv, Kherson e outras cidades sofreram ataques de mísseis, as Nações Unidas relatam a morte de mais de 200 civis. O Serviço Estatal de Emergências da Ucrânia relata mais de 2 mil mortes. As baixas militares são objeto de controvérsia, com ambas as nações alegando milhares de mortes entre as fileiras de soldados da nação rival.

Mas, em vez de se concentrar nos números, Dyatlik, que coordena uma rede regional de dezenas de seminários protestantes, voltou-se para a Bíblia.

“Lembrem-se de Mordecai e Ester”, ele escreveu em 1º. de março, em uma carta aberta. “Não sejam como Josafá, que se aliou a Acabe e ficou calado, quando Deus falou por meio do profeta Micaías.”

Dyatlik acusou seus colegas russos de comprarem a retórica nacional — primeiro, em 2014, quando forças apoiadas pela Rússia invadiram a região leste de Donbas — e novamente agora. Mas “suplicando de joelhos”, ele alavancou sua reputação com os líderes das organizações evangélicas da Rússia — enquanto, ao mesmo tempo, reconheceu sua difícil realidade.

“Vocês temem ir para a prisão”, disse ele. “[Mas] não sejam fiéis a Putin. Sejam fiéis ao corpo de Cristo”.

Alterações recentemente aprovadas no Código Penal russo estabelecem uma sentença de até 15 anos de prisão por “falsas” alegações de violência na Ucrânia, enquanto as autoridades reprimem os russos que chamam a “operação militar” de “guerra”.

Desacreditar as forças armadas agora pode resultar em uma sentença de 3 anos; convocar comícios antiguerra pode chegar a uma sentença de 5 anos. Com base nos níveis de gravidade, multas e trabalho forçado são penalidades menores.

Dyatlik não foi o único a se sentir frustrado. Em vez de se basear nas Escrituras, porém, seu colega Valerii Antoniuk recorreu à história.

“Onde estão os Bonhoeffers, onde estão os Barths da Rússia?” perguntou o chefe da União de Igrejas Evangélicas Batistas de Toda a Ucrânia. “Seu silêncio agora é o sangue e as lágrimas de crianças, mães e soldados ucranianos — isso está em suas mãos.”

Pavel Kuznetsov, enquanto isso, simplesmente quer que a palavra correta seja usada — haja lei ou não.

“Muitos crentes na Rússia estão orando sobre a ‘situação’ na Ucrânia. A situação se chama GUERRA”, escreveu no Facebook o pastor da igreja Palavra da Vida, em Boyarka, 24 quilômetros a sudoeste de Kiev. “E da próxima vez que vocês orarem, digam a Deus que isso é uma guerra e que estamos sendo mortos aqui.”

Até a publicação deste artigo, mais de 300 evangélicos russos teriam recebido a mensagem.

“É chegada a hora em que cada um de nós deve chamar as coisas por seu verdadeiro nome, enquanto ainda temos a chance de escapar da punição de cima e impedir o colapso de nosso país”, afirmou uma carta aberta, assinada por um grupo de pastores russos e outros líderes protestantes. “Pedimos às autoridades de nosso país que parem com esse derramamento de sangue sem sentido!”

A mensagem deles também era bíblica.

Citou Jeremias 18.7-8, passagem que diz que a nação que se arrepender de seus maus caminhos será poupada.

Fez referência a Caim, que cometeu o pecado de fratricídio contra seu irmão Abel.

E conclamou a nação a implementar as palavras de Jesus: “Guarde sua espada de volta [...] Pois todos os que empunharem a espada, pela espada morrerão” (Mateus 26.52).

Dyatlik recebeu a declaração da carta com grande alegria, mas também com oração fervorosa.

“Eles literalmente estão arriscando suas vidas”, disse ele. “Mas demonstram seu amor pelo Senhor e por seu corpo: somos um no Espírito”.

A carta aberta está disponível no site da Mirt Publishing House, uma pequena editora evangélica de São Petersburgo, e é assinada principalmente por batistas e pentecostais russos afiliados a igrejas ou seminários em Moscou, São Petersburgo e mais de 40 outras cidades.

[Nota do editor: A petição contida na carta foi encerrada, depois de ter conseguido juntar 400 assinaturas em 2 dias.]

“Este é um passo extraordinariamente corajoso em comparação com a timidez evangélica anterior sob Putin”, disse Mark Elliott, editor emérito do East-West Church Report, um jornal focado há 29 anos em explicar o cristianismo eurasiano aos cristãos do Ocidente. “Estou surpreso e animado que essas pessoas corajosas estejam defendendo a Ucrânia. Elas sofrerão por isso, a menos que Putin seja tirado do poder. Senhor, tem piedade.”

“A carta não é uma reação típica dos protestantes russos. Ficar longe da política tem sido sua principal postura há décadas”, disse Andrey Shirin, professor do seminário batista na Virgínia (Estados Unidos), nascido na Rússia. “Eles têm sido rotineiramente acusados pelas autoridades soviéticas de serem antigoverno. Em resposta, eles disseram que eram crentes, não políticos.

“Muitos protestantes russos estão mantendo essa postura no conflito atual”, disse ele. “Mas alguns desejam um maior envolvimento social, e a tragédia que se desenrola na Ucrânia atingiu um nervo sensível.”

Um dos líderes que assinaram a carta, no entanto, repudiou a expectativa de que todos os cristãos russos deveriam fazer o mesmo.

Alexey Markevich, um dos nove protestantes russos que assinou oficialmente a carta antes de sua divulgação pública, disse que nem todos precisam ser um Bonhoeffer.

“O chamado primeiro da igreja é a proclamação da Palavra de Deus [...] [e] essa proclamação acontece de muitas maneiras diferentes: pastores pregam, teólogos escrevem, filantropos doam pão, pessoas choram com quem chora, ativistas vão para as praças”, disse ele. “É importante que cada um de nós enxergue o seu chamado e o cumpra com sinceridade diante de Deus, servindo a ele e às pessoas.”

Além disso, Bonhoeffer e outras figuras famosas que lutaram contra o mal, embora sejam modelos de fidelidade em si mesmos, não se aplicam diretamente ao que os ucranianos estão exigindo dos russos hoje.

“Esses exemplos são importantes e relevantes para nós”, disse Markevich. “Mas [eles não saíram] para fazer piquete, e [Bonhoeffer] não encabeçou nenhuma atividade pública.”

Seria difícil obter resultados com essas ações, na opinião de Markevich. Os evangélicos na Rússia não têm influência política para parar a guerra, seja escrevendo cartas ou lotando as praças da cidade. Alguns ainda vão tentar, como o próprio Markevich disse que vem fazendo desde 2014. Mas o verdadeiro poder está em outro lugar.

“Deus pode deter a guerra”, disse ele. “É por isso que clamamos a ele.”

Embora com menos risco, mas ainda a um custo eclesiástico significativo, alguns padres ortodoxos, afiliados a Moscou e radicados na Ucrânia, estão pedindo a seus bispos locais que repudiem o patriarca Kirill da Igreja Ortodoxa Russa.

“Esta dolorosa tragédia sem precedentes […] foi desencadeada pela conspiração maligna e a omissão maliciosa de uma pessoa que não podemos reconhecer como nosso patriarca”, declararam 10 padres da diocese de Cherkasy, da Igreja Ortodoxa Ucraniana (IOU), 193 quilômetros a sudeste de Kiev, em um comunicado conjunto.

“Exigimos o rompimento de todas as relações com a Igreja Ortodoxa Russa e a restauração da comunicação eucarística com o patriarca ecumênico”.

Em 2019, Bartolomeu I, o patriarca ecumênico da Igreja Ortodoxa, com sede em Istambul, reconheceu a independência nacional da Igreja Ortodoxa da Ucrânia (IODU). Muitas paróquias na Ucrânia rejeitaram-na e optaram por permanecer sob o patriarcado de Moscou, como tem sido o precedente histórico. (Os números exatos das igrejas afiliadas à IODU e à IOU na Ucrânia são difíceis de determinar.)

Mas agora, bombardeados pelas forças russas, os dez padres dirigiram sua carta ao metropolita Onufriy, o líder da IOU, e exigiram que seu bispo local rompesse laços com Kirill.

Eles também foram bíblicos, fazendo referência a Ester e a Provérbios 24, textos que obrigam o crente a não fingir ignorância, mas sim a resgatar aqueles que estão enfrentando a morte.

“Encontraremos forças para lutar não com pessoas de mente fraca”, afirmaram, “mas com Cristo, que é nosso verdadeiro pastor, pai e protetor, a quem seja a honra e a glória para sempre. Amém.”

Sua ação foi seguida pelos padres da IOU de Lviv, que se tornou a primeira diocese a convocar unanimemente a ruptura com Moscou.

“Hoje as máscaras caíram. Ficou evidente para todos que, por trás das palavras sobre o amor fraterno e a criação de um único espaço espiritual do ‘mundo russo’, havia um desejo de origem humana de enterrar e ignorar o povo ucraniano, povo livre e que ama a Deus”, disseram em seu comunicado, comparando Putin a Caim da Bíblia.

“Permanecer em unidade de oração e eucarística com o Patriarcado de Moscou […] faz com que os fiéis da UOC pareçam colaboradores com o inimigo e traidores.”

O mundo vê uma realidade semelhante.

A Assembleia Geral das Nações Unidas realizou uma votação com placar de 141 a 5, e 35 abstenções, para condenar a Rússia e pedir o fim das hostilidades. Apenas Bielorrússia, Síria, Coreia do Norte e Eritreia se juntaram à Rússia na oposição à medida.

Sergei Ryakhovsky, chefe da União Russa de Cristãos de Fé Evangélica, uma das duas maiores associações pentecostais do país, foi citado no Vzglyad, um jornal russo on-line, por ter orado para que a “operação militar russa” — a terminologia preferida de Putin — termine até a Páscoa, em 24 de abril, bem como por destacar a defesa de João Batista aos soldados.

“Qualquer cristão, de qualquer denominação, é contra a violência”, disse ele, segundo o artigo do Vzglyad. “Mas, ao mesmo tempo, entendo que a paz é alcançada por diferentes métodos, entre eles a força, como nesta situação.”

Ryakhovsky mais tarde denunciou a entrevista, alegando ser falsa, em uma postagem no story do Instagram. “Queridos irmãos e irmãs, se, em um futuro próximo, vocês lerem na imprensa citações de palavras minhas sobre a Ucrânia, saibam que elas são falsas”, ele postou na sexta-feira.

Mesmo assim, muitos analistas estão prevendo um conflito prolongado.

“Muito provavelmente, as forças de ocupação só aumentarão seus esforços, destruindo nosso país e muitas vidas”, disse Roman Soloviy, diretor do Instituto de Teologia do Leste Europeu em Lviv. “Portanto, não podemos desistir. (…) Em meio a caos, dor e morte, devemos continuar sendo instrumentos de Deus, instrumentos de consolo, ajuda e esperança”.

E isso em parte veio agora da Rússia, mesmo quando seu governo passou a censurar a mídia. Dozhd e Ekho Moskvi, fontes liberais de notícias, foram recentemente fechadas. Mas alguns líderes evangélicos continuam a falar.

“Nenhum interesse ou objetivo político pode justificar a morte de pessoas inocentes”, afirmou a carta aberta. “A guerra destrói não apenas a Ucrânia, mas também a Rússia — o povo, a economia, a moralidade e o futuro da Rússia.”

Nota do editor: Este artigo foi atualizado na sexta-feira, 4 de março, para incluir a declaração feita no Instagram, por Sergei Ryakhovsky, de que sua entrevista publicada no Vzglyad é falsa.

Traduzido por Mariana Albuquerque.

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