John Edmund Haggai, pregador e avivalista que viu a necessidade de treinar cristãos do mundo todo para evangelizarem seus próprios países, morreu na quarta-feira, aos 96 anos.

Conhecido por desafiar as pessoas a "tentar fazer algo tão grandioso para Deus], que aquilo seja fadado ao fracasso, a menos que Deus esteja envolvido”, Haggai fundou o Instituto Haggai para Liderança Avançada, mudou-o para Cingapura e treinou mais de 120 mil evangelistas de países não ocidentais, incluindo 1.200 da Indonésia, 400 das Filipinas, 500 da Índia, 400 da Nigéria e 380 do Brasil. Ele argumentou que essa nova estratégia era a melhor para missões globais, após o fim do colonialismo ocidental.

Um de seus primeiros alunos foi K. P. Yohannan, que depois fundou a organização Gospel for Asia.

“Haggai contava muitas histórias”, lembra Yohannan. “Em todas elas, os cristãos eram vencedores e gigantes — homens e mulheres que receberam uma visão de Deus e se recusaram a abandoná-la. A diligência no chamado era uma virtude altamente valorizada. Haggai foi a primeira pessoa que me fez acreditar que nada é impossível com Deus”.

Haggai nasceu em Louisville, Kentucky, em 1924. Seu pai era um refugiado sírio, que fugiu das forças turcas em 1912 e foi acolhido nos Estados Unidos. Ele converteu-se do cristianismo ortodoxo oriental ao cristianismo evangélico, matriculou-se no Moody Bible Institute e tornou-se pastor da denominação Batista do Sul.

O filho foi inspirado a seguir os passos de seu pai: Aceitou Jesus como seu Senhor e Salvador aos quatro anos de idade e anunciou que sentiu o chamado para pregar aos seis. Alguns anos depois, Haggai disse que queria ser missionário na China.

Haggai foi estudar no Moody Bible Institute, como seu pai, e conheceu Christine Barker, de Bristol, na Virginia, uma soprano que cantava profissionalmente desde os 13 anos de idade e tinha seu próprio programa musical semanal no rádio. Ela havia desistido de uma bolsa de estudos na Julliard para estudar no Moody. Haggai se apaixonou e os dois se casaram um dia após a formatura, em 1945.

Enquanto o jovem recém-graduado ainda sonhava em ser um missionário na China, eclodiu uma guerra civil entre nacionalistas e comunistas, e o casal Haggai decidiu ficar nos Estados Unidos. Haggai logo aceitou o cargo de pastor de uma igreja em Lancaster, na Carolina do Sul. Ele fez a igreja crescer para cerca de mil membros e foi elogiado pelo recorde de frequência à escola dominical.

Haggai iniciou um ministério de rádio, com um programa semanal de 15 minutos chamado Cruzada por Cristo. Ele também se formou em história e filosofia, pela Furman University, em Greenville, Carolina do Sul, e começou a viajar com a Mocidade para Cristo.

Ele era um orador impactante e popular no circuito evangelístico. Um anúncio afirmava que, embora fosse apenas um jovem, ele “mergulhou nas profundezas da Bíblia e emergiu com respostas úteis para muitos dos problemas de nosso tempo”. Ele condenava o declínio moral da época e exortava as pessoas a recorrerem à Bíblia como um guia para a vida.

Em um sermão, ele pregou que “um milhão de martelos golpearam a bigorna da Palavra de Deus” e agora “os martelos estão quebrados, mas a bigorna permanece.”

Haggai não desafiou diretamente o racismo e a segregação do Sul, mas ocasionalmente ele próprio entrou em conflito com os códigos raciais. Em um hotel, ele foi confundido com um cantor que deveria se apresentar. Em certas partes do país, os anúncios de suas cruzadas evangelísticas já tinham de informar sua etnia.

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Em 1950, o casal Haggai teve seu único filho, John Haggai Jr. Ele sofreu uma lesão cerebral traumática no nascimento, causada por um médico embriagado. O casal se recusou a deixar o filho aos cuidados de uma instituição, e Christine se dedicou a cuidar do menino em tempo integral. Depois que Johnny morreu, aos 24 anos, Haggai escreveu que, apesar do filho nunca ter falado mais do que duas palavras por vez, estava convencido de que ele fazia orações poderosas, preso dentro de seu corpo debilitado.

Poucos meses após o nascimento de Johnny, a família mudou-se para Chattanooga, no Tennessee, onde Haggai assumiu a igreja Woodland Park Baptist como pastor titular. Seu primeiro sermão na megaigreja foi intitulado: “O que há de errado com sua igreja”. Ele desafiou a congregação a viver sua fé, testemunhar a seus vizinhos e apoiar missões globais.

Em 1956, Haggai mudou-se para outra megaigreja, em Louisville, a Ninth and O Baptist Church. A escola dominical tinha mais de 2 mil participantes regulares. Ele batizou cerca de 420 pessoas em seu primeiro ano, e aumentou a classe de missão da igreja para quase mil pessoas. Naquele ano, Haggai foi convidado a falar na conferência de pastores que antecede a Convenção Batista do Sul, e decidiu pregar sobre o que havia de errado com os pregadores.

“Deus nos ajude a reavaliar e a enfatizar novamente o lugar do púlpito no evangelismo”, disse Haggai. “Púlpitos revitalizados em nossa terra, com a devida ênfase na pregação evangelística, trarão um novo dia, tanto em termos espirituais quanto sociais, para dentro de nossas fronteiras enevoadas pelo álcool, enlouquecidas pela luxúria e saturadas pelo ouro. Não permita, ó Deus, que minimizemos o lugar do púlpito no evangelismo”.

O sermão rendeu-lhe manchetes nacionais. “A CULPA É DO PÚLPITO”. Uma delas dizia: “Ministros que substituem a pregação do evangelho são denunciados na Convenção Batista”. Convites para falar começaram a aparecer — mais de 700 em todo o país — e Haggai decidiu deixar o ministério pastoral e se tornar um evangelista itinerante de tempo integral.

Depois de muitos anos apoiando o trabalho missionário e incentivando missionários, Haggai teve a chance de proclamar o evangelho no exterior, em 1964, quando foi convidado a pregar no Líbano. Lá, uma interação com cristãos em Beirute mudou o resto de sua trajetória no ministério. Ele ouviu alguns líderes cristãos locais reclamando dos missionários.

“Sinceramente, aquilo me deixou com raiva”, Haggai lembrou mais tarde. “Eu sabia de missionários no mundo todo que haviam se sacrificado imensamente, muitos dando a própria vida. Como alguém poderia questionar os métodos daqueles que estavam dispostos a pagar um preço tão alto por seu compromisso?”

Os líderes locais disseram a ele que os ocidentais não cooperavam com os cristãos locais, e muitas vezes os impediam de ocupar cargos de liderança, mesmo que tivessem mais experiência e melhor formação do que os missionários. Eles não compreendiam as culturas locais, causando ofensas desnecessárias, e, aos olhos dos não convertidos, pareciam representar mais o poder colonial do que a causa de Cristo.

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“As pessoas não estão rejeitando Jesus”, disseram os cristãos libaneses. “Eles estão rejeitando a dominação ocidental.”

Haggai, então, mudou de ideia.

“Foi um momento significativo para o Dr. Haggai”, disse Ebenezer Bittencourt, diretor do Instituto Haggai no Brasil. “Na viagem de avião para casa, ele percebeu que o mundo estava mudando e que a estratégia para missões e evangelismo tinha de mudar também”.

Ele desenvolveu seu primeiro instituto para treinamento de liderança, voltado a “preparar e inspirar” líderes nacionais, em 1969, na Suíça. Os primeiros alunos foram da Indonésia, Índia, Paquistão, Coreia, que então se chamava Formosa, e Líbano.

Dois anos depois, com uma doação de 500 mil dólares e um empréstimo de 130 mil dólares de Cecil Day, fundador do Days Inn Hotels, Haggai mudou o instituto para Cingapura. Seguindo o conselho de Day, os membros do conselho eram todos cingapurianos e Haggai era o único professor com passaporte americano. O ministério treinou evangelistas de 189 países.

“A experiência de liderança no Haggai realmente mudou a maneira como vejo o mundo”, disse Josie Ching, cristã nas Filipinas. “Entendi que cada um de nós é um missionário por si só e no lugar em que Deus o colocou”.

O Instituto Haggai comemorou seu 50º aniversário em 2019, com mais de 600 líderes de mais de 60 países. O ministério se comprometeu a treinar mais 250 mil líderes na próxima década.

Haggai foi precedido na morte por seu filho, Johnny, que faleceu em 1964, e por sua esposa, Christine, que faleceu em 2019. O Haggai International está coletando homenagens a sua vida e trabalho em todo o mundo, e preparando um culto memorial on-line.

Traduzido por Erlon Oliveira

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