Uma investigação de quatro meses descobriu que o falecido Ravi Zacharias aproveitou-se de sua reputação como apologista cristão mundialmente famoso para abusar de massoterapeutas, nos Estados Unidos e no exterior, por mais de uma década, enquanto o ministério liderado por seus familiares e aliados leais falhou em responsabilizá-lo por sua conduta.

Zacharias usava sua necessidade de submeter-se a massagens e as viagens frequentes ao exterior para ocultar seu comportamento abusivo, e atraía suas vítimas ao criar confiança por meio de conversas sobre temas espirituais e ofertas de fundos diretamente de seu ministério.

Um relatório de 12 páginas, divulgado na quinta-feira pelo Ravi Zacharias International Ministries (RZIM), confirma os abusos cometidos por Zacharias em spas que ele possuía em Atlanta, e revela mais cinco vítimas nos EUA, bem como evidências de abuso sexual na Tailândia, na Índia e na Malásia.

Mesmo uma checagem limitada nos antigos dispositivos eletrônicos de Zacharias revelou contatos de mais de 200 massagistas nos Estados Unidos e na Ásia, e centenas de imagens de mulheres jovens, incluindo algumas que as mostravam nuas. Zacharias solicitiu e recebeu fotos até poucos meses antes de sua morte, em maio de 2020, aos 74 anos.

Zacharias usou dezenas de milhares de dólares de fundos do ministério, que deveriam ser destinados a “esforços humanitários”, para pagar quatro massoterapeutas. Ele lhes forneceu moradia, educação e uma quantia mensal por longos períodos de tempo, de acordo com os investigadores.

Uma mulher disse aos investigadores que “depois que ele providenciou para que o ministério lhe desse apoio financeiro, ele exigiu sexo dela”. Ela chamou isso de estupro.

A mulher afirmou que Zacharias “a fez orar com ele para agradecer a Deus pela ‘oportunidade’ que ambos receberam” e, como fazia com outras vítimas, “ele a chamava de sua ‘recompensa’ por levar uma vida de serviço a Deus”, diz o relatório. Zacharias advertiu a mulher — uma irmã em Cristo — que, se ela o denunciasse, seria responsável por milhões de almas que se perderiam, quando sua reputação fosse prejudicada.

As descobertas, juntamente com detalhes revelados ao longo de meses de investigações internas no RZIM, desafiam a imagem que muitos têm de Zacharias.

Quando ele morreu, em maio, foi elogiado por seu testemunho fiel, seu compromisso com a verdade e sua integridade pessoal. Agora está claro que, nos bastidores, o homem por tanto tempo admirado por cristãos ao redor do mundo abusou de inúmeras mulheres e manipulou pessoas ao seu redor para fazerem vista grossa.

Os advogados da auditoria Miller & Martin, Lynsey Barron e William Eiselstein, contratados pelo RZIM para investigar o caso, entrevistaram 50 testemunhas e examinaram os telefones celulares que Zacharias usou de 2014 a 2018. No final, os advogados disseram: “Estamos confiantes de que descobrimos evidências suficientes para concluir que o Sr. Zacharias se envolveu em má conduta sexual”, embora a investigação não tenha sido exaustiva.

O conselho do RZIM divulgou um comunicado, junto com as conclusões da investigação, expressando arrependimento e assumindo parte da responsabilidade:

“Ravi se envolveu em uma série de medidas abrangentes para ocultar seu comportamento de sua família, seus colegas e amigos. No entanto, também reconhecemos que, em situações de abuso prolongado, muitas vezes existem problemas estruturais, políticos e culturais significativos. [...] Nossa equipe, nossos mantenedores e o público confiaram em nós para orientar, supervisionar e garantir a probidade de Ravi Zacharias, e nisso falhamos”.

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O RZIM contratou a auditoria Miller & Martin após uma reportagem da Christianity Today, de setembro de 2020 sobre alegações de abuso por parte de três mulheres que trabalharam nos spas de Zacharias. Inicialmente, a liderança do ministério afirmou não acreditar nas mulheres. Hoje, isso mudou.

“Acreditamos não apenas nas mulheres que tornaram suas denúncias públicas, mas também em outras mulheres que não haviam feito denúncias públicas contra Ravi, mas cujas identidades e histórias foram descobertas durante a investigação”, disse o comunicado.

Em um período de oito meses, o RZIM passou da necessidade de repensar como seria o trabalho do ministério, após a morte de seu fundador, à urgência de ter de se reestruturar totalmente, à medida que cristãos dentro e fora da organização perdiam a confiança em seu líder de longa data.

Vários preletores e membros da equipe do RZIM deixaram o ministério, durante o curso da investigação, preocupados com a resposta inicial de altos funcionários às alegações. A filial canadense do RZIM suspendeu os esforços de arrecadação de fundos e coleta de doações até abril, enquanto a Zacharias Trust, com sede no Reino Unido, ameaçou deixar o ministério, caso o RZIM não se desculpasse com as vítimas e implementasse grandes mudanças. (Atualização: no dia seguinte à divulgação do relatório sobre as investigações, a diretoria do Reino Unido votou unanimemente em favor de deixar o RZIM e pela escolha de um novo nome).

Mesmo antes da divulgação do relatório, na noite de quinta-feira, a liderança do RZIM implementou mudanças para reduzir o envolvimento da família Zacharias. Margie Zacharias, viúva de Ravi, deixou o conselho e o ministério em janeiro, enquanto sua filha, Sarah Davis, deixou o cargo de presidente do conselho, embora continue como CEO.

Membros da equipe interna do RZIM dizem que o ministério — a maior organização apologética do mundo — planeja fazer uma redução drástica de tamanho para apenas dez apologistas americanos e alguns palestrantes internacionais, apoiados por uma pequena equipe.

Investigação limitada por um acordo de sigilo

Além de confirmar relatos anteriores de abusos nos spas de Zacharias, o novo relatório corroborou as alegações feitas há 4 anos por Lori Anne Thompson, uma canadense que diz que Zacharias a pressionou para enviar textos e fotos sexualmente explícitos. O caso dela foi o primeiro escândalo sexual relacionado a Zacharias a se tornar público, e inspirou outras vítimas a se apresentarem.

Zacharias processou Lori Anne Thompson em 2017, sob a alegação de que a carta de seu advogado ao conselho do RZIM, com acusações de abuso sexual, era, na verdade, uma tentativa elaborada de extorsão. O conselho escreveu, na quinta-feira: “acreditamos que Lori Anne Thompson disse a verdade sobre a natureza de seu relacionamento com Ravi Zacharias”.

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Os investigadores entrevistaram outras testemunhas que “relataram conduta semelhante” à das acusações de Thompson, e encontraram evidências que apontam para a existência de um padrão de seis anos de trocas de mensagens de texto com outras mulheres, antes e depois de Lori Anne.

Entretanto, Lori Anne Thompson e seu marido, Brad, não puderam participar da recente investigação. O espólio do falecido apologista recusou os pedidos dos investigadores para revogar um acordo de sigilo (NDA), a fim de permitir que os Thompsons falassem sobre o que aconteceu. Seu advogado, Basyle Tchividjian, disse aos investigadores que, com tudo o que veio à luz, o fato de os Thompson ainda estarem vinculados a um acordo de sigilo é “inaceitável”.

Davis escreveu, em um e-mail enviado para todo o ministério, que o RZIM “pediu uma modificação no acordo de sigilo, para fins de investigação”, mas a organização não tem autoridade sobre o espólio, que é controlado por sua mãe, Margie Zacharias. O espólio também se recusou a permitir que os advogados pessoais de Zacharias entregassem qualquer evidência coletada de seus dispositivos pessoais na época, deixando uma lacuna nos registros examinados pela auditoria Miller & Martin.

De acordo com o relatório das investigações, no entanto, Zacharias continuou solicitando imagens de conteúdo sexual de outras mulheres, enquanto chegava a um acordo com os Thompson, defendia-se publicamente e assegurava à liderança e à equipe do RZIM que não havia feito nada de errado e que não havia necessidade de investigar.

“Embora ele tenha dito à sua equipe que seu verdadeiro erro no caso Thompson foi não ter alertado alguém de que estava recebendo fotos de outra mulher, não temos nenhuma indicação de que ele tenha procurado a administração do RZIM ou mesmo seu Conselho, nas mais de 200 ocasiões em que ele recebeu fotos de mulheres, durante o caso Thompson e depois”, diz o relatório.

Na verdade, um dia depois de Zacharias ter declarado publicamente, em 2017, que havia aprendido uma “lição difícil e dolorosa” com sua comunicação com Lori Anne Thompson, ele recebeu mais fotos de outra mulher, conforme descobriram os investigadores. Essa mulher passou a enviar-lhe fotos nuas também.

Uma coisa mudou, no entanto. Depois do caso Thompson, os investigadores notaram que Zacharias aprimorou sua técnica para excluir suas mensagens de maneiras que não pudessem ser detectadas nem descobertas.

Em seu comunicado, divulgado com o relatório, a diretoria do RZIM reconheceu sua falha e pediu desculpas a Lori Anne Thompson.

“Estávamos errados”, diz o comunicado. “É com profundo pesar que reconhecemos que, por não acreditarmos nos Thompson e por perpetuarmos privada e publicamente uma narrativa falsa, eles foram caluniados por anos e seu sofrimento foi imensamente prolongado e intensificado. Isso nos deixa com o coração partido e envergonhado”.

‘Ele foi capaz de ocultar sua má conduta à vista de todos’

Muito do abuso descoberto pelos investigadores aconteceu no contexto de massagens, a que Zacharias recorria para tratar uma lesão crônica nas costas. Ele viajava regularmente com uma massagista pessoal e criticou um colega de equipe do RZIM, o qual questionou a “aparência de conduta imprópria” por Zacharias agir assim.

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Embora os investigadores não tenham entrevistado fontes no exterior, descobriram evidências de que Zacharias costumava se encontrar com massagistas quando viajava.

“Ele costumava agendar sessões de massagem em seu quarto de hotel quando, supostamente, estava sozinho”, disse o relatório. “De acordo com suas mensagens de texto, às vezes ele se encontrava com as terapeutas no saguão do hotel, e outras vezes as orientava a ir direto para o seu quarto”.

Em Bangkok, no início dos anos 2010, ele foi proprietário de dois apartamentos, um deles localizado no mesmo prédio de uma de suas massagistas, descobriram os investigadores. Um aplicativo de notas em seu celular incluía traduções, para o tailandês e o mandarim, de frases como “Eu gostaria de ter uma bela lembrança com você”, “um pouco mais longe” e “seus lábios são especialmente belos”.

As massoterapeutas e as mulheres retratadas nos álbuns do celular de Zacharias eram décadas mais jovens do que ele, muitas na casa dos 20 anos.

A investigação não encontrou nenhuma evidência de que a liderança ou a equipe do RZIM soubesse da má conduta sexual de Zacharias. Também mostra que o ministério tinha pouca ou nenhuma ingerência sobre as ações de seu fundador.

“Como sua necessidade de tratamentos com massagens era bem conhecida e aceita, ele conseguiu ocultar sua má conduta à vista de todos”, diz o relatório.

Zacharias falava sobre a importância de “salvaguardas físicas” para “proteger minha integridade”, mas o relatório da auditoria Miller & Martin observa que “Como arquiteto dessas ‘salvaguardas físicas’, o Sr. Zacharias sabia muito bem como evitá-las”.

A investigação confirmou que Zacharias mentiu sobre não ficar sozinho com outra mulher que não fosse sua esposa ou suas filhas. Ele também mantinha vários telefones celulares, o tempo todo, com planos de internet móvel diferentes do RZIM, e nunca usava a rede sem fio do escritório. Zacharias dizia que era por segurança, mas isso garantia que sua comunicação não pudesse ser monitorada.

O comunicado do conselho do RZIM reconhece que ficou “gravemente aquém do esperado” e expressa pesar “por termos permitido que nossa confiança indevida em Ravi resultasse em menos supervisão e prestação de contas por parte dele do que teria sido sábio e amoroso”.

Cada exemplo no relatório contrasta com o testemunho público de um líder — e de um ministério — conhecidos por pregar integridade e verdade.

“Aqueles de vocês que me viram em público não fazem ideia de como eu sou na vida privada”, Zacharias disse a seus apoiadores, em uma palestra que deu, cerca de um ano antes de morrer, registrada em uma gravação compartilhada com a CT. “Deus faz. Deus faz. E eu encorajo você, hoje, a assumir o compromisso de dizer: ‘Eu serei em minha vida privada o homem que receberá o elogio divino:'Muito bem, servo bom e fiel’”.

Muitos que viam Zacharias como mentor, modelo e pai espiritual têm tentado lidar com essas novas informações, seus sentimentos de traição e as dúvidas sobre a própria responsabilidade nisso tudo.

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“Eu me sinto desapontado comigo mesmo e com outros, pois poderíamos ter pressionado mais fortemente contra a onda de lealdade submissa, para exigirmos respostas melhores bem antes, já que não há nenhuma parte do credo evangélico que honre a covardia ou sacrifique a consciência”, escreveu Dan Paterson, ex-chefe do RZIM na Austrália, no Facebook, na quarta-feira à noite.

“Tenho uma profunda sensação de temor ao Senhor, sabendo que um dia também eu prestarei contas, pois, assim como foi com o relatório sobre RZ, tudo o que for feito sob o manto das trevas será dado a conhecer. Jesus vem para restaurar a justiça por meio do juízo. Oh, como gostaria que Ravi tivesse se arrependido aqui!”

Mudanças no RZIM

O conselho (cujos nomes não estão disponíveis publicamente) e a liderança estão planejando um acerto de contas desde que o relatório provisório dos investigadores preparou o RZIM, em dezembro, para esperar o pior.

Ao entrar no processo, em setembro de 2020, a posição oficial do ministério era de que as alegações não podiam ser verdadeiras, mas que conduziria uma investigação para limpar o nome de Zacharias. A princípio, o RZIM contratou o escritório de um dos advogados que processou os Thompsons. Várias pessoas de dentro do ministério disseram que o vice-presidente Abdu Murray sugeriu recrutar um ex-policial “durão” para rastrear os acusadores e descobrir informações que o ministério poderia usar para desacreditá-los.

O RZIM mudou de rumo e contratou a auditoria Miller & Martin no início de outubro, depois que vários dos preletores disseram que consideravam as alegações verossímeis, e exigiram que o ministério fizesse uma investigação real e confiável.

“Acredito que cada um de nós carrega certo grau de responsabilidade pelas coisas para as quais todos temos sido cegos, também por aquelas que permitimos involuntariamente, ou aquelas contra as quais não nos pronunciamos e pelas que permitimos ir adiante e continuar”, disse Sam Allberry, um dos preletores, a colegas no Reino Unido.

Como a CT relatou anteriormente em uma reportagem, disputas em torno de questões como cumplicidade e responsabilidade perturbaram o ministério por meses, enquanto a investigação prosseguia. No início do novo ano, o RZIM estava se preparando para uma divisão.

Davis informou à equipe que alguns escritórios globais podem decidir se separar do RZIM e se tornarem organizações nacionais independentes. Atualmente, cada escritório tem contrato social ou estatuto nacional próprios, como instituição de caridade, e está associado ao ministério sediado nos Estados Unidos por meio de um “contrato de afiliação”. Isso permitiu que o RZIM atuasse como um único ministério global.

“Temos sido capazes de operar como uma só organização, na prática, por mais de 35 anos. No entanto, um momento de crise como o nosso fez com que alguns de nossos conselhos precisassem tomar decisões separadas da matriz e do Conselho Internacional, a fim de chegarem às melhores decisões para sua entidade, segundo seu entendimento”, escreveu Davis.

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Alguns apologistas mais antigos do RZIM acham que a separação por país é a única maneira de preservar partes do ministério que estão fazendo um bom trabalho.

John Lennox, matemático e apologista da Irlanda do Norte, que participou de famosos debates com Richard Dawkins, Christopher Hitchens e outros “novos ateístas”, pediu enfaticamente que a filial britânica do RZIM se separasse da matriz. Lennox desvinculou-se de qualquer associação com o RZIM um dia após a CT ter noticiado as acusações sobre os spas, mas disse aos apologistas britânicos que ficaria feliz em trabalhar com eles, se formassem uma organização independente.

“As acusações atuais são de natureza tão séria que não posso estar envolvido em nenhuma atividade em andamento como representante do RZIM”, escreveu Lennox em um comunicado aos conselhos do Reino Unido e dos EUA. “Em minha opinião, a organização deveria receber outro nome e passar por uma reestruturação fundamental, da organização em si e do conselho. Isso precisa ser feito, e bem rápido, caso se queira preservar o potencial dessa maravilhosa jovem equipe de apologistas em qualquer sentido coletivo que seja”.

Outros conselhos nacionais também estão em processo de se desvincular da matriz nos EUA, de acordo com várias fontes de dentro do ministério. O conselho canadense disse em um comunicado que “está claro que este ministério não pode ser construído sobre as estruturas anteriores”, mas “deve ser construído sobre novas abordagens e novos relacionamentos”.

O ministério canadense de apologética também demitiu quatro membros da equipe, incluindo Daniel Gilman, um preletor que decidiu acreditar nas mulheres que acusaram Zacharias de abuso sexual e que desafiou frontalmente a liderança do RZIM a reconhecer sua cumplicidade. Gilman disse à CT que estava profundamente preocupado que o ministério que ele amava escolhesse mudar de nome, porém, sem se arrepender.

O pacote de rescisão de Gilman incluiu um acordo de sigilo, que o impediria de tomar parte em “qualquer ação em relação à qual fosse razoavelmente possível prever que viria a causar dano à reputação” do RZIM ou “ter sobre ela algum reflexo negativo”. Gilman protestou e o acordo de sigilo foi substituído por um acordo para manter a confidencialidade das informações dos mantenedores.

Espera-se que ocorram muito mais demissões em breve. Os funcionários do RZIM disseram à CT que supõem que o ministério internacional, que já contou com 100 preletores e 250 funcionários em todo o país, seja reduzido a uma fração disso. Davis disse à equipe que as demissões serão anunciadas nas semanas seguintes à divulgação do relatório da auditoria Miller & Martin.

“Esta é uma decisão muito difícil, necessária apenas por causa da situação em que nos encontramos”, escreveu ela. “Sentimos profundamente por isso”.

Após a redução no quadro de pessoal e as separações das filiais de outros países, a equipe que permanecerá provavelmente será formada por alguns dos preletores mais próximos de Zacharias, que têm relacionamentos bem sólidos com os principais mantenedores do ministério. Os integrantes do quadro de pessoal do RZIM esperam que esse núcleo inclua os palestrantes Michael Ramsden, Abdu Murray e Vince Vitale, e seja liderado por Davis.

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Davis deixou o cargo de presidente do conselho, passando a liderança para Chris Blattner, executivo aposentado de uma empresa do ramo de energia e importante mantenedor de Minnesota. Durante a crise, porém, Davis assumiu mais a gestão do dia a dia do RZIM, pondo seu nome pessoalmente em todas as comunicações internas e externas.

O conselho do RZIM declarou na quinta-feira que “À luz dos resultados da investigação e da avaliação contínua, estamos buscando a vontade do Senhor em relação ao futuro deste ministério [...]. Dedicaremos tempo à oração e ao jejum, enquanto discernimos a direção de Deus, e falaremos sobre isso em um futuro próximo”.

O RZIM anunciou que está trazendo a advogada das vítimas, Rachael Denhollander, para instruir o conselho e a liderança sobre a questão do abuso sexual, e aconselhá-los sobre as melhores práticas para o futuro. O ministério também contratou uma empresa de consultoria de gestão para avaliar “estruturas, cultura, políticas, processos, finanças e práticas” do RZIM e propor reformas.

Oração respondida

O segredo do abuso de Zacharias começou a ser desvendado no dia de seu funeral, em maio de 2020. Uma das massoterapeutas que ele apalpou, na frente de quem se masturbou e a quem pediu imagens sexualmente explícitas, assistia em estado de choque enquanto o apologista era homenageado e celebrado em uma transmissão ao vivo. Pessoas famosas, incluindo o vice-presidente Mike Pence e o astro do futebol cristão Tim Tebow, falavam de Zacharias em termos elogiosos.

Ninguém tem coragem de dizer a verdade? ela pensou. Ninguém?

Ela se preocupava com outras mulheres que poderiam estar sofrendo também, no anonimato. E orou para que algo acontecesse.

A mulher buscou no Google “Escândalo sexual de Ravi Zacharias” e encontrou o blog RaviWatch, administrado por Steve Baughman, um ateu que vinha rastreando e relatando acusações contra Zacharias desde 2015. Baughman postou no blog as falsas declarações de Zacharias sobre suas credenciais acadêmicas, acusações de sexting (anglicismo que se refere à divulgação de conteúdos eróticos e sensuais através de celular) e o processo judicial subsequente. Quando a mulher leu sobre o que aconteceu com Lori Anne Thompson, reconheceu que o mesmo acontecera a ela.

Pelo que ela sabia, esse blogueiro ateu era o único que se importava com o fato de Zacharias ter abusado sexualmente de pessoas e ter escapado ileso. Ela procurou Baughman e, mais tarde, conversou com a Christianity Today sobre os spas de Zacharias, as mulheres que trabalhavam lá e os abusos que aconteciam a portas fechadas.

A funcionária dos spas disse à CT que não esperava nada do RZIM. Nem mesmo um reconhecimento. Muito menos um pedido de desculpas. Um ministério multimilionário, construído em cima do nome de um homem e de sua reputação, jamais admitiria a verdade de seus segredos, ela pensou.

Ela só veio a público porque queria que outras mulheres — também feridas por Zacharias, ou vítimas de outros cristãos famosos e celebrados — soubessem a verdade. Ela queria que soubessem que não estavam sozinhas.

Esta semana, ela acredita que Deus respondeu sua oração.

“Acho que aconteceu no tempo perfeito de Deus”, disse. “No tempo dele; do jeito dele. O Senhor está fazendo isso, e o que vai sobrar é o que Deus quer que sobre”.

Traduzido por Maurício Zágari

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