Se uma forma de vida alienígena visitasse a Terra para conhecer a igreja e simplesmente lesse o dito Twitter cristão, não tenho certeza se eles teriam alguma ideia de que acreditamos em algo chamado Encarnação, Ressurreição ou Ascensão. Eles, no entanto, saberiam muito sobre as tendências de votação dos evangélicos, o debate sobre a ordenação de mulheres, posicionamentos sobre o aborto e qualquer outra controvérsia que esteja em alta no momento.

Nosso discurso on-line habitual muitas vezes nos doutrina a subestimar o vasto mistério de Deus — com toda a admiração e a adoração que ele inspira — e a mergulhar em comentários e discussões sociológicas e teológicas. Essas conversas importam, é claro. Mas corremos o risco de substituir a transcendência pela imanência. Perdemos os aspectos mais profundos de Deus para a controvérsia cristã do momento.

Há um termo para essa tentação que só ouvi entre sacerdotes: “queima do altar”. Refere-se a um perigo particular da nossa atividade. Os pastores lidam regularmente com coisas sagradas — cálices e pães consagrados, mas também com as Escrituras e momentos sensíveis da vida das pessoas.

Há um perigo inerente nesta exposição frequente. Passamos a tratar as coisas sagradas profanamente. Banalizamos as coisas sagradas. Em meio à cacofonia de uma semana de trabalho mundana, esquecemos o milagre completo que estamos proclamando.

Resistir à queima do altar costumava ser uma luta específica de pessoas que regularmente pregam, ensinam e lideram congregações. Hoje, porém, qualquer pessoa com um teclado pode falar, ensinar ou discutir sobre Deus, todos os dias, do nascer ao pôr do sol.

Com essa habilidade recém-descoberta, todos corremos o risco de queimar o altar coletivo. O Deus triúno, transcendente e totalmente avassalador torna-se algo reduzido a uma abstração sociológica ou teológica. Muitos de nós passamos muito mais tempo nas mídias sociais do que no culto, e esse espaço digital muitas vezes impede o verdadeiro arrependimento, a contemplação ou a oração.

Fica mais difícil nos aproximarmos de Deus como o misterioso criador da “Nebulosa do caranguejo” [restos da explosão de uma supernova], o sustentador de cada minuto e o redentor do cosmo, quando passamos horas lendo as palavras de estranhos discutindo com outros estranhos sobre coisas espirituais.

Quando se tornam diárias, essas atividades produzem um tipo de esgotamento em falar sobre Deus, com o qual perdemos de vista aquilo que é mais indescritível e mais poderoso sobre nosso Criador. Noções robustas de verdade, beleza e bondade tornam-se ralas em nossa imaginação.

Então, qual é a solução para impedir a queima do altar? Isso requer que voltemos a nos engajar com a sacralidade, o estranhamento, a assombrosa maravilha de Deus. Requer silêncio, quietude, adoração e arrependimento. Requer falar menos de Deus e buscar mais a Deus.

Mas como faremos isso? As mídias sociais vieram para ficar. No entanto, temos de aprender a recuar — não para longe das discussões sobre a fé, mas para aquelas formas mais antigas e mais lentas de conversa espiritual com pessoas reais e com livros de muitas páginas. Temos de adotar práticas como solitude, jejum, adoração conjunta e sacramentos – esses hábitos incorporados que resistem a serem subordinados pela tecnologia. E precisamos de topologias inteiras de terreno espiritual em nossa vida, as quais nunca discutimos on-line — partes de nós mesmos que preservamos apenas para Deus e nossas comunidades encarnadas.

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Acima de tudo, precisamos estar atentos às tendências banalizantes da mídia com a qual nos relacionamos. Não existe meio neutro. Os hábitos tecnológicos geram nossa formação espiritual, que por sua vez gera nossa devoção e nossa doxologia.

“Quando a porta dos banhos de vapor é continuamente deixada aberta, o calor do interior escapa rapidamente por ela”, escreveu o asceta do quinto século, Diádoco de Foticeia. “Da mesma forma, a alma, em seu desejo de dizer muitas coisas, dissipa suas reminiscências de Deus pela porta da fala.”

Os cristãos agora têm a oportunidade de manter a “porta da fala” constantemente aberta. Dissipamos nossas reminiscências de Deus, mesmo quando temos as coisas da fé na ponta dos lábios — ou melhor, na ponta dos nossos teclados.

Embora a aplicação seja diferente, a sabedoria do Diádoco ainda permanece. Ele aconselhou os crentes a “evitarem a verborragia” em prol do “silêncio oportuno”, que é “nada menos do que a mãe dos mais sábios pensamentos”.

Aprender o “silêncio oportuno” é um ato contracultural, especialmente quando há coisas boas a dizer e uma mídia sempre pronta exigindo que as digamos. Mas, se não resistirmos às suas exigências, nosso discurso sobre Deus substituirá lentamente a adoração que somente a Ele é devida.

Tish Harrison Warren é pastora da Igreja Anglicana na América do Norte e autora de Liturgy of the Ordinary e Prayer in the Night (IVP, 2021). Siga-a no Twitter @Tish_H_Warren.

Traduzido por Mariana Albuquerque.

Editado por Marisa Lopes.

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